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Saúde

Outubro Rosa começa com mamografia liberada aos 40 no SUS, mas exame cai entre 50 e 69 anos

Outubro Rosa começa com mamografia liberada aos 40 no SUS, mas exame cai entre 50 e 69 anos
· 7 min de leitura

O Outubro Rosa 2026 começa nesta quinta-feira em um momento paradoxal: o Brasil ampliou oficialmente o acesso à mamografia pelo SUS para mulheres a partir dos 40 anos — cinco anos antes da idade em que o rastreamento de rotina era recomendado até 2025 —, mas os dados mais recentes mostram que, enquanto o exame cresce justamente nessa faixa mais jovem, ele está caindo entre as mulheres de 50 a 69 anos, que já deveriam fazer o exame com regularidade há décadas.

O que aconteceu

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 78,6 mil novos casos de câncer de mama por ano no Brasil, número de referência para o triênio 2026-2028 — um patamar mais alto do que a estimativa anterior, de 73,6 mil casos anuais até 2025. A taxa de risco média é de 71,57 casos por 100 mil mulheres, mas com disparidade regional expressiva: o Sudeste tem a maior taxa (88,29 por 100 mil), seguido do Sul (77,91); Centro-Oeste (61,32) e Nordeste (58,02) ficam na faixa intermediária, e o Norte tem a menor taxa do país (31,28 por 100 mil).

Paralelamente, dados da Fundação Integrada de Diagnóstico, Pesquisa, Educação e Inovação em Saúde (FIDI) — instituição privada sem fins lucrativos com mais de cem unidades de diagnóstico por imagem em seis estados — mostram que, comparando janeiro a julho de 2024 com o mesmo período de 2026, o número de mamografias realizadas por mulheres de 40 a 49 anos cresceu 28,1%. No mesmo intervalo, o exame caiu mais de 20% entre mulheres de 50 a 69 anos — justamente a faixa etária em que o rastreamento bienal já é recomendação médica consolidada há mais tempo.

Por que aconteceu

A expansão do acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos não é uma mudança recente isolada: foi formalizada pelo Ministério da Saúde em setembro de 2025, pela Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS, que passou a permitir que mulheres dessa faixa etária façam o exame pelo SUS mesmo sem sintomas, por decisão conjunta com o profissional de saúde — sem periodicidade obrigatória fixa, diferente da faixa de 50 a 74 anos, para a qual o rastreamento bienal continua sendo a recomendação padrão. A justificativa oficial do Ministério foi que 22,6% dos casos de câncer de mama no Brasil ocorrem justamente entre os 40 e 49 anos, uma parcela relevante demais para deixar essas mulheres fora de qualquer rastreamento sistemático. Somente em 2024, o SUS já havia realizado mais de 1 milhão de mamografias em mulheres com menos de 50 anos.

Já a queda do exame entre mulheres de 50 a 69 anos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem que levantou os dados da FIDI, não tem uma causa única identificada, mas está associada a “receios e percepções equivocadas”: medo da dor do procedimento, receio de receber um diagnóstico positivo, e uma falsa sensação de segurança por não apresentar nenhum sintoma perceptível. Nenhum desses três motivos tem relação com o exame em si ser mais ou menos necessário — a ausência de sintomas é, na verdade, exatamente o cenário em que o rastreamento preventivo mais importa, porque tumores em estágio inicial raramente doem ou aparecem a olho nu.

O que isso significa

O retrato é de um sistema de saúde que avançou de forma real e recente na ampliação de acesso — a mudança de 2025 é, segundo o próprio Ministério da Saúde, “uma decisão histórica” — mas que ainda enfrenta um desafio comportamental antigo: rastreamento não é um exame único, é um hábito de repetição ao longo de décadas, e é exatamente a manutenção dessa regularidade que parece estar falhando entre as mulheres mais próximas da faixa etária de maior incidência da doença.

Sobre a origem dos casos, o Inca reforça que entre 10% e 15% dos tumores de mama têm origem genética, ligada a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 — histórico familiar de câncer de mama ou de ovário é um sinalizador relevante para investigação genética adicional. Os demais 85% têm causas variadas e, em boa parte, não totalmente esclarecidas, embora exista uma tendência observada de aumento de casos entre mulheres com menos de 40 anos, cuja causa ainda não está definida com precisão — oncologistas apontam fatores de estilo de vida como hipótese em investigação, sem que isso configure, até aqui, uma conclusão definitiva da ciência.

O Outubro Rosa nasceu nos Estados Unidos no fim dos anos 1980 e se consolidou no Brasil a partir dos anos 2000 como campanha anual de conscientização, geralmente marcada pela iluminação rosa de monumentos e prédios públicos ao longo do mês. O símbolo chamativo tem função clara: lembrar, ano após ano, que a detecção precoce continua sendo o fator isolado mais determinante para o desfecho do tratamento. Quando o câncer de mama é identificado em estágio inicial, antes de se espalhar para outros tecidos, as taxas de sobrevida em cinco anos costumam superar 90% na maior parte dos casos — o inverso do que ocorre quando o diagnóstico chega em estágio avançado, quando o tratamento se torna mais complexo, mais longo e com resultado menos previsível. É esse intervalo de tempo, entre o início silencioso da doença e o momento em que ela é percebida, que o exame de imagem regular tenta encurtar.

Como isso afeta você

Se você tem entre 40 e 49 anos e nunca fez mamografia, a mudança de 2025 significa que você já pode solicitar o exame pelo SUS mesmo sem apresentar qualquer sintoma — o caminho é conversar com o profissional de saúde da unidade básica ou ginecologista sobre a indicação, já que a periodicidade nessa faixa é decidida caso a caso, não fixa. Se você tem entre 50 e 74 anos, a recomendação já é mais direta: mamografia a cada dois anos, independentemente de sintomas, e os dados mostram que é justamente essa constância que está diminuindo — não porque o exame parou de ser indicado, mas porque, aparentemente, menos mulheres dessa faixa estão comparecendo com a regularidade esperada.

Se você já teve algum caso de câncer de mama ou de ovário na família, vale levar esse histórico para a consulta médica — pode ser motivo para investigação genética adicional ou início mais precoce do acompanhamento, independentemente da sua idade atual. E se o que está afastando você do exame é medo da dor ou do resultado, vale conversar abertamente com o profissional de saúde sobre isso: entender o procedimento antes de fazê-lo tende a reduzir a ansiedade, e um resultado positivo encontrado precocemente quase sempre significa tratamento mais simples e eficaz do que um diagnóstico tardio.

O que observar daqui para frente

Vale acompanhar se a expansão do acesso aos 40 anos, ainda recente, vai de fato reduzir a proporção de diagnósticos tardios ao longo dos próximos ciclos de dados do Inca — o efeito de uma mudança de política de rastreamento normalmente só aparece com clareza depois de alguns anos de acompanhamento. Também merece atenção se a queda do exame entre mulheres de 50 a 69 anos é uma tendência nacional generalizada ou um recorte específico da base de dados da FIDI, o que exigiria dados de outras redes de diagnóstico e do próprio SUS para confirmação mais ampla.

Por fim, o Outubro Rosa deste ano tende a concentrar campanhas de conscientização justamente nesse ponto — regularidade do exame, não apenas acesso a ele —, e vale observar se unidades de saúde e planos de saúde vão reforçar ativamente a convocação de mulheres de 50 a 69 anos que estejam com o rastreamento atrasado, em vez de depender apenas da procura espontânea.

Fontes

Instituto Nacional de Câncer (Inca), estimativa de incidência de câncer 2026-2028; Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS; levantamento da Fundação Integrada de Diagnóstico, Pesquisa, Educação e Inovação em Saúde (FIDI) sobre volume de mamografias por faixa etária, 2024-2026.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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