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Saúde

Outubro Rosa 2026: mamografia no SUS dos 50 aos 74 anos e por que as sociedades médicas pensam diferente

Outubro Rosa 2026: mamografia no SUS dos 50 aos 74 anos e por que as sociedades médicas pensam diferente
· 8 min de leitura

Outubro é o mês em que o Brasil se veste de rosa, e a campanha costuma render mais lembretes do que explicações. Este ano, um ponto merece atenção especial: desde setembro de 2025, a orientação do SUS sobre quem deve fazer mamografia e com que frequência mudou. Ao mesmo tempo, as sociedades médicas especializadas continuam recomendando uma regra diferente. Entender essa diferença ajuda a conversar com o médico e a decidir quando começar o exame.

O que aconteceu

Em 23 de setembro de 2025, o Ministério da Saúde atualizou a diretriz de rastreamento do câncer de mama no SUS. A faixa de convocação para a mamografia preventiva, feita em mulheres sem sintomas, passou a ir dos 50 aos 74 anos, com exame a cada dois anos. Antes, o limite era 69 anos. Para as mulheres de 40 a 49 anos, o acesso ao exame passou a ser garantido mesmo sem sinais ou sintomas, mas sem periodicidade pré-definida: a decisão de fazer a mamografia é compartilhada entre a paciente e o profissional de saúde.

A recomendação vigente segue a mesma lógica apresentada pelo INCA (Instituto Nacional de Câncer), que em sua página para a população orienta mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Na justificativa da mudança, o ministério citou as orientações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o fato de que o envelhecimento é um dos principais fatores de risco para o câncer de mama.

Por que aconteceu

O contexto é o tamanho do problema. Segundo a estimativa do INCA para o triênio 2026-2028, o Brasil deve registrar cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano, o equivalente a uma taxa de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. Excluindo os tumores de pele não melanoma, é o câncer mais incidente entre as mulheres. A distribuição regional é desigual: a estimativa é de 88,29 casos por 100 mil mulheres no Sudeste, 77,91 no Sul, 61,32 no Centro-Oeste, 58,02 no Nordeste e 31,28 no Norte. Parte dessa diferença pode refletir populações mais envelhecidas e maior acesso a diagnóstico nas regiões mais ricas, e não apenas um risco maior; é uma hipótese razoável, que as estimativas por si só não resolvem.

Em mortalidade, os dados mais recentes citados pelo INCA mostram 20.849 mortes por câncer de mama no Brasil em 2024. O rastreamento existe para reduzir esse número: a mamografia pode identificar tumores pequenos, ainda sem nódulo palpável, quando o tratamento costuma ser menos agressivo e as chances de cura são maiores.

A escolha da faixa de 50 a 74 anos se apoia na avaliação, comum nas diretrizes internacionais, de que nessa idade o equilíbrio entre benefícios e riscos do exame é mais favorável para a população em geral. Os riscos do rastreamento em massa incluem resultados falsos positivos, que geram ansiedade e exames adicionais, e o chamado sobrediagnóstico, a descoberta de tumores que talvez nunca causassem problemas. Esses efeitos pesam mais nas mulheres mais jovens, cujas mamas costumam ser mais densas, o que dificulta a leitura do exame, e cujo risco médio de doença é menor.

O que isso significa

A principal consequência prática é que existem hoje duas referências diferentes no debate público. O Ministério da Saúde e o INCA organizam o rastreamento populacional a partir dos 50 anos, com intervalo de dois anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) já recomendavam, segundo reportagem da IstoÉ, a mamografia anual dos 40 aos 74 anos para mulheres com risco populacional usual.

Essa divergência tem uma explicação: uma política pública precisa considerar milhões de mulheres, a capacidade de realizar e interpretar exames, e o custo-benefício em escala. Uma recomendação de consultório parte do indivíduo e tende a privilegiar a detecção mais precoce possível. Nenhuma das duas posições é um “erro”. Mas elas levam a decisões diferentes, sobretudo para quem está na faixa dos 40 aos 49 anos, que é justamente onde a diretriz do SUS deixa a decisão em aberto.

Também é preciso separar duas situações. O rastreamento é para quem não tem queixas. Se há um nódulo, uma alteração na pele da mama ou qualquer outro sinal, o caminho é a investigação diagnóstica, independentemente da idade e do calendário do rastreamento. Segundo o INCA, os sinais que merecem avaliação incluem nódulo na mama, saída espontânea de secreção pelo mamilo, lesões de pele que não cicatrizam, pele com aspecto de casca de laranja, retração da pele ou do mamilo e caroços na região do pescoço ou da axila.

Como afeta você

Se você tem entre 50 e 74 anos, a orientação é fazer a mamografia a cada dois anos, mesmo sem sintomas. O caminho no SUS começa na Unidade Básica de Saúde mais próxima, onde a equipe pode orientar sobre agendamento e encaminhamento. Se você está fora dessa faixa, não tem sintomas e se pergunta se deve começar antes, vale levar a pergunta à consulta. Fatores como histórico familiar de câncer de mama ou de ovário, sobretudo antes dos 50 anos, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 e outros itens da sua história clínica podem mudar a recomendação individual.

Para além do exame, existe uma parte da prevenção que depende dos hábitos. O INCA estima que cerca de 17% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com atividade física regular, controle do peso corporal, redução do consumo de álcool e amamentação. Entre os fatores de risco listados pelo instituto estão excesso de gordura corporal, sedentarismo, consumo de bebida alcoólica, exposição à radiação ionizante, trabalho noturno, primeira menstruação antes dos 12 anos, ausência de filhos ou primeira gravidez depois dos 30, menopausa depois dos 55 anos, uso de anticoncepcionais hormonais e terapia de reposição hormonal na pós-menopausa. Boa parte desses fatores não é modificável, e a presença de um deles não significa que a doença vai aparecer, apenas que a conversa com o profissional de saúde merece mais atenção.

Por fim, o Outubro Rosa também é uma oportunidade de conversar com mães, irmãs, tias e amigas. Muitas mulheres que estão na faixa de rastreamento atrasam o exame por falta de tempo, medo do resultado ou dificuldade de agendamento. Lembrar alguém de marcar a mamografia é uma ação simples com efeito real.

O que observar daqui para frente

O primeiro ponto é a aplicação da nova faixa na prática. Ampliar a convocação até os 74 anos aumenta a demanda por mamografias na rede pública, e a capacidade de realizar os exames e de entregar os laudos a tempo será um indicador importante de se a mudança chega de fato às pacientes. O segundo ponto é o debate entre as diretrizes. É possível que as entidades médicas e os órgãos públicos aproximem as recomendações para a faixa dos 40 aos 49 anos à medida que surjam novos estudos, inclusive sobre o uso de recursos complementares, como ultrassonografia e ressonância, para mulheres de alto risco.

O terceiro ponto são os dados regionais. A diferença entre o Norte, com 31,28 casos estimados por 100 mil mulheres, e o Sudeste, com 88,29, levanta a pergunta sobre quanto dessa distância reflete menor incidência e quanto reflete menor capacidade de diagnóstico. Acompanhar a mortalidade por região, e não só a incidência, ajuda a responder isso nos próximos anos.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Para decisões sobre o seu caso, converse com um profissional de saúde.

Fontes

Instituto Nacional de Câncer (INCA), página “Câncer de mama — versão para população” (estimativa 2026-2028 de 78.610 casos por ano, 20.849 mortes em 2024, rastreamento de 50 a 74 anos, fatores de risco e sinais de alerta); CNN Brasil (05/03/2026), taxas estimadas por região; Olhar Digital (04/02/2026), estimativa do INCA 2026-2028; Jornal de Brasília (23/09/2025), atualização da diretriz do Ministério da Saúde; IstoÉ (23/09/2025), posição de SBM, Febrasgo e CBR.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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