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Eleição, juros e Bolsa: o que o mercado levava para o 1º turno e o que observar na segunda-feira

Eleição, juros e Bolsa: o que o mercado levava para o 1º turno e o que observar na segunda-feira
· 7 min de leitura

A Bolsa de Valores brasileira fechou a sexta-feira, véspera da eleição, no maior nível desde abril. No domingo, o primeiro turno confirmou um segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), marcado para 25 de outubro. A segunda-feira será o primeiro pregão depois do resultado. Este texto não tenta prever o que o mercado vai fazer, e sim organizar o que já se sabe: onde os preços estavam antes da votação, por que eles costumam se mexer em semanas como esta e o que um investidor comum pode fazer, ou evitar, nos próximos dias.

O que aconteceu

Com a apuração praticamente concluída (99,97% das seções), Flávio Bolsonaro (PL) somava 47,04% dos votos válidos e Lula (PT), 45,15%, uma diferença de cerca de 2,25 milhões de votos, segundo os dados do TSE divulgados pela imprensa. Nenhum dos dois atingiu mais de 50% dos votos válidos, por isso a disputa presidencial segue para 25 de outubro. Os números finais oficiais podem variar levemente em relação aos aqui citados.

No mercado, o último dado antes da votação é o da sexta-feira, 02/10. O Ibovespa, principal índice da Bolsa, fechou aos 192.114,55 pontos, em alta de 2,63% no dia e de 4,71% na semana, o maior patamar desde 22 de abril de 2026. O dólar comercial fechou perto de R$ 5,22, praticamente estável no dia, com alta de cerca de 0,65% na semana. Os juros futuros recuaram em toda a curva: o contrato de janeiro de 2027 terminou em 13,51% ao ano e o de janeiro de 2029, em 13,69%.

Os veículos de notícias apontaram vários fatores para a alta de sexta. No exterior, um relatório de emprego mais fraco nos Estados Unidos reforçou a aposta de que o banco central americano pode fazer uma pausa em outubro, e as bolsas de Nova York subiram. Internamente, a Petrobras avançou 2,81% depois de anunciar uma descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, a Vale subiu 2,56% e os grandes bancos tiveram ganhos, com Bradesco em alta de 3,34% e Banco do Brasil de 3,04%. O pregão foi volátil e a alta se firmou ao longo da tarde.

Por que aconteceu

Preços de ativos costumam se mover antes dos eventos, porque investidores negociam com base no que esperam que aconteça. Em semanas de eleição, esse movimento tende a ser maior, porque o resultado pode influenciar a trajetória das contas públicas, dos juros e do câmbio. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), de novembro de 2025, analisou 261 eleições em 38 economias emergentes entre 1990 e 2020 e encontrou menor entrada de capital privado nos períodos eleitorais, sobretudo onde há mais incerteza política depois da votação.

Além da política, o cenário econômico também pesa. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, o quinto corte seguido, por decisão unânime. Ao mesmo tempo, o crescimento perdeu fôlego: o PIB do segundo trimestre avançou 0,5% e o consumo das famílias recuou 0,4%. Juros altos, atividade mais fraca e projeções de inflação que, segundo o boletim Focus, seguem acima do teto da meta formam o pano de fundo em que o mercado precifica a eleição, e analistas comentam que o corte de setembro pode ter sido o último do ano.

O que isso significa

O ponto central é que o mercado não reage ao resultado em si, e sim à diferença entre o resultado e o que estava precificado. Um desfecho amplamente esperado pode render movimento pequeno, enquanto uma surpresa, em qualquer direção, pode gerar movimento grande. O 1º turno de 2022 é um exemplo de magnitude: no pregão seguinte, em 3 de outubro daquele ano, o Ibovespa subiu 5,54% e o dólar caiu 4,02%, logo depois da divulgação do resultado. Esse dado não indica o que acontecerá agora, apenas mostra que movimentos de vários pontos percentuais em um único dia já ocorreram em dia seguinte a eleições.

Também é importante lembrar que o primeiro turno não encerra a disputa. Faltam três semanas até o segundo turno, e o mercado tende a reagir a cada pesquisa, declaração e sinalização econômica nesse intervalo. Por isso, o preço da segunda-feira não é necessariamente o preço de 26 de outubro. Há ainda um calendário econômico independente da política: a próxima reunião do Copom está marcada para 3 e 4 de novembro, e a última do ano, para 8 e 9 de dezembro, ambas depois do segundo turno.

Como afeta você

Se você investe em renda fixa pós-fixada, como Tesouro Selic, CDBs ou fundos atrelados ao CDI, o rendimento acompanha a Selic, hoje em 13,75% ao ano, e oscila pouco com o noticiário eleitoral. Já quem tem títulos prefixados ou atrelados à inflação precisa lembrar que o preço desses papéis varia todos os dias com os juros futuros. Se você segurar até o vencimento, recebe a taxa contratada; se vender antes, pode ter ganho ou perda, dependendo do momento. Ações e fundos imobiliários também são sensíveis às mudanças nos juros e ao humor do mercado.

O dólar pesa mais para quem tem viagem marcada, compra produtos importados ou tem gastos em moeda estrangeira. Quem tem uma compra grande em dólar nos próximos meses pode considerar dividir a compra em partes, em vez de depender de um único dia de câmbio.

Algumas regras de bom senso valem para qualquer investidor em semanas assim. Não tome decisões por manchete: um dia de forte alta ou queda raramente deve mudar uma estratégia pensada para anos. Mantenha a reserva de emergência em aplicações de liquidez diária e sem risco de perda, para não precisar vender nada em dia ruim. Se for comprar ou vender ações em dias de oscilação grande, prefira ordens com preço limite, em vez de ordens a mercado, que podem ser executadas a preços bem diferentes dos que você viu na tela. Evite alavancagem e operações de curtíssimo prazo se você não tem experiência com elas. E desconfie de grupos de mensagens, perfis e “análises” que prometem lucro certo com a eleição: períodos de grande atenção pública costumam atrair golpistas.

Este texto tem caráter informativo e educacional. Não é recomendação de investimento e não considera seu perfil, seus objetivos nem sua situação financeira. Para decisões sobre o seu dinheiro, converse com um profissional habilitado.

O que observar daqui para frente

O primeiro marco é a abertura da Bolsa na segunda-feira, às 10h, quando o mercado vai mostrar sua primeira reação ao resultado. Vale olhar o Ibovespa, o dólar e a curva de juros futuros, em especial os contratos de 2027 e 2029, que fecharam sexta em 13,51% e 13,69%. Na mesma segunda-feira, o Banco Central divulga o boletim Focus, a pesquisa semanal com projeções de economistas para inflação, juros, câmbio e crescimento.

O segundo ponto é o calendário político: as pesquisas do segundo turno e o desenrolar da campanha até 25 de outubro. O terceiro é a composição do Congresso, que, como lembram analistas, influencia quais medidas econômicas conseguem avançar, independentemente de quem ocupar a Presidência. E o quarto é a agenda econômica, que continua independente da eleição: a decisão do Copom em 3 e 4 de novembro, os próximos dados de atividade e a inflação, que vão indicar se os cortes de juros continuam ou se pausam.

Em resumo, a segunda-feira vai mostrar uma reação inicial, mas não o desfecho. Para o investidor de longo prazo, a pergunta mais útil costuma ser outra: minha carteira está adequada ao meu prazo e ao meu perfil de risco, independentemente de quem ganhe?

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apuração do 1º turno de 2026, conforme divulgada por InvestNews (04/10/2026) e Bloomberg Línea (04/10/2026); InfoMoney e Finance News, fechamento do mercado em 02/10/2026; InvestNews, “Eleições 2026 afetam mercado e economia” (08/09/2026), com dados do FMI e do pregão de 03/10/2022; Banco Central, calendário de reuniões do Copom 2026 e decisão de 16/09/2026.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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