Entre os anos 1960 e 1980, um morador do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, andava pela comunidade com uma câmera fazendo o que ninguém mais fazia naquela escala: fotografar o cotidiano do bairro por encomenda dos próprios vizinhos. Sebastião Pires de Oliveira, o Tião, morreu em 2015, mas seu arquivo de mais de 270 fotografias — a maioria inédita — agora ocupa o Museu de Arte do Rio (MAR) na exposição “Tião: um fotógrafo da Providência”.
O que é a exposição
Aberta desde maio, a mostra reúne retratos de família, festas de bairro, encontros de carnaval e o próprio traçado urbano da região portuária do Rio se transformando ao longo de duas décadas — tudo registrado por um fotógrafo que também era morador e, portanto, via aquela comunidade por dentro, não como visitante. Além do espaço dentro do museu, parte da exposição ocupa a estação do teleférico da Providência, levando o trabalho de Tião de volta ao lugar onde ele foi produzido.
Por que essa mostra chama atenção
Fotografia de encomenda popular — aquela feita para o próprio retratado, não para galeria ou jornal — raramente chega a um museu com a curadoria e o volume que o MAR está dando ao acervo de Tião. É um tipo de registro histórico que normalmente se perde: álbuns de família, fotos de festa, retratos do dia a dia de uma comunidade que a imprensa tradicional quase nunca fotografou com esse cuidado. Ver esse material tratado como patrimônio artístico e histórico é também uma forma de reconhecer que a história visual do Rio não se resume ao que foi fotografado pelos veículos oficiais da época.
Informações práticas
O museu fica na Praça Mauá, 5, no Centro do Rio, aberto de terça a domingo, das 11h às 18h (última entrada às 17h) — fechado às quartas. A entrada é gratuita às terças-feiras. A exposição segue em cartaz até 29 de novembro, mas o recorte dedicado especificamente ao Morro da Providência encerra antes, em 16 de agosto — quem quiser ver o conjunto completo, incluindo a extensão na estação do teleférico, tem até essa data.
O que observar daqui pra frente
Vale acompanhar se o MAR vai repetir esse formato de curadoria — dar espaço institucional a arquivos fotográficos de bairro, produzidos por moradores para moradores — com outras comunidades do Rio. É um modelo que, se replicado, pode revelar acervos parecidos escondidos em outras regiões da cidade, ainda sem o mesmo reconhecimento que o trabalho de Tião está finalmente recebendo.