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Saúde

PrEP injetável contra o HIV: o que o estudo da Fiocruz mediu, o que o SUS ainda decide e onde entra o lenacapavir

PrEP injetável contra o HIV: o que o estudo da Fiocruz mediu, o que o SUS ainda decide e onde entra o lenacapavir
· 8 min de leitura

A prevenção do HIV ganhou nos últimos meses duas novidades que costumam ser confundidas: um estudo brasileiro sobre uma injeção aplicada a cada dois meses e a aprovação de outra, aplicada a cada seis. As duas existem, uma foi testada em serviços do SUS e a outra teve o preço máximo divulgado nesta semana, mas nenhuma está disponível de graça na rede pública. Entender o que cada resultado mede, e o que ainda depende de decisão, ajuda a ler as manchetes sem criar expectativa errada sobre a PrEP, a profilaxia pré-exposição, que é o uso de medicamento por pessoas sem HIV para reduzir o risco de se infectar.

O que aconteceu

O estudo ImPrEP CAB Brasil, conduzido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, foi publicado na revista The Lancet HIV em 24 de setembro de 2026, segundo a Exame e o Mix Vale. Participaram 1.201 pessoas de 18 a 30 anos, atendidas em serviços públicos do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Campinas, de Florianópolis, de Manaus e de Salvador, entre elas homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas não binárias e homens e mulheres trans. O acompanhamento terminou em 16 de outubro de 2025, segundo a Exame.

O estudo comparou a PrEP injetável de cabotegravir, aplicada por via intramuscular a cada dois meses depois das doses iniciais, com a PrEP oral diária. Segundo a Exame, 92% das aplicações ocorreram dentro do intervalo previsto, e a medicação cobriu 90,8% dos dias acompanhados no grupo injetável, contra 35,5% no grupo da PrEP oral. Houve 3 novas infecções no grupo do cabotegravir, o equivalente a 0,20 por 100 pessoas-ano, e 18 no grupo oral, ou 1,48 por 100 pessoas-ano.

Na segunda-feira, 19, a Folha de S.Paulo noticiou, e o Conselho Federal de Farmácia reproduziu no dia seguinte, o preço máximo do lenacapavir, a injeção semestral: R$ 20.914,22 por aplicação, definido pela CMED, a câmara que regula o preço de medicamentos. A Anvisa aprovou o lenacapavir como PrEP em janeiro de 2026, para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg e teste negativo para HIV, em uma dose a cada seis meses.

Por que aconteceu

A PrEP oral existe há anos e é oferecida gratuitamente no SUS, segundo a Exame, mas exige tomar um comprimido por dia, e o próprio estudo mostra o efeito disso: a cobertura da medicação foi de 35,5% dos dias no grupo oral, contra 90,8% no injetável. Para a Conitec, o potencial do cabotegravir está em alcançar pessoas mais vulneráveis ou com dificuldade de acesso e de adesão à PrEP oral, segundo material do Conselho Federal de Farmácia sobre a reunião de agosto.

Há também um pano de fundo epidemiológico. De acordo com o Relatório Global sobre Aids 2026 do Unaids, citado pelo CFF e pelo Mix Vale, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de pessoas vivendo com HIV. Desde 2010, as novas infecções caíram 42,9% no mundo e subiram 21,9% no Brasil, que está entre os 21 países com alta superior a 20%.

O que isso significa

O ponto mais importante é a diferença entre o que cada número mede. Uma matéria do Mix Vale de 2 de outubro chegou a falar em “90,8% de proteção”, mas outra do mesmo veículo, de 22 de outubro, esclarece que esse percentual é a cobertura de dias acompanhados, e não a eficácia. O que o estudo mostra é que as pessoas mantiveram a medicação ativa por muito mais tempo e que houve menos infecções no grupo injetável, 3 contra 18, em jovens de 18 a 30 anos de seis cidades.

A eficácia vem de ensaios anteriores. A Agência Einstein, em texto reproduzido pelo Poder360, cita a redução relativa de risco de 66% no ensaio HPTN 083 e de 89% no HPTN 084, em comparação com a PrEP oral, e uma redução global de cerca de 79% em metanálise considerada pela Conitec. A GSK afirma proteção superior a 99%, segundo o Brasil em Folhas, número da empresa que este texto não usa.

Sobre a situação regulatória, o cabotegravir tem registro na Anvisa desde 2023 para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg. A Conitec fez uma recomendação preliminar favorável à incorporação na sua 154ª reunião, entre 5 e 7 de agosto, e abriu a Consulta Pública nº 76/2026, que recebeu contribuições até 31 de agosto, conforme o CFF. A recomendação final vem depois, e a decisão cabe ao Ministério da Saúde. Segundo a GSK, ouvida pelo Brasil em Folhas, se o parecer positivo vier em outubro a empresa tentaria fechar a negociação e disponibilizar o medicamento ainda neste ano, mas a própria fala não garante prazo. As fontes consultadas não registram uma recomendação final até esta sexta-feira.

O lenacapavir está em outra etapa. O CFF informa que ele ainda não é vendido comercialmente no Brasil e não é oferecido pelo SUS, e que o preço de R$ 20.914,22 é um limite regulatório, não necessariamente o valor praticado. Eventos adversos descritos incluem dor, inchaço e nódulos no local da aplicação. Um estudo de viabilidade, o ImPrEP LEN Brasil, está em andamento desde dezembro de 2025 em sete municípios, segundo o Mix Vale.

Como isso afeta você

Se você usa ou pensa em usar PrEP, a informação prática é que a PrEP oral segue disponível gratuitamente no SUS e que nenhuma das injeções está disponível na rede pública hoje. A chegada do injetável, quando e se ocorrer, não deve substituir a oral, segundo o Brasil em Folhas, que informa que a PrEP oral é usada por mais de 150 mil pessoas no país, e o diretor do departamento de HIV do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, disse que a prioridade seria alcançar populações pouco cobertas por ela, como mulheres cis e trans e travestis, afirmando ainda que 80% dos usuários da PrEP oral são homens que fazem sexo com homens. Segundo a Agência Einstein, os critérios de prioridade ainda não foram definidos.

A PrEP previne o HIV e não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, como registra o CFF sobre o lenacapavir. A decisão de usar PrEP, e de qual tipo, deve ser tomada com um profissional de saúde, que fará o teste de HIV antes do início.

Quanto às notícias de “remissão”, o Mix Vale relata que um estudo da Unifesp, publicado em 2025, teve um participante com carga viral indetectável por 78 semanas depois de interromper os antirretrovirais, com rebote na semana 84. O próprio artigo diz que não se trata de cura e que o resultado é de um único participante, preliminar.

O que observar daqui para frente

O primeiro ponto é a recomendação final da Conitec para o cabotegravir, esperada para outubro segundo a Exame e a GSK, e a decisão do Ministério da Saúde em seguida. O segundo é o preço e o acordo de compra, que as fontes não detalham. O terceiro é o início da oferta, que, segundo o Brasil em Folhas, poderia começar por cerca de 3 mil tratamentos, parte em estudo de implementação e parte para populações específicas, número de fonte única. Os critérios de acesso também seguem em aberto.

O quarto é o lenacapavir, que depende de avaliação para incorporação e não tem prazo confirmado, segundo o CFF. Por ora, o serviço de saúde mais próximo faz o teste, orienta e informa o que está disponível na sua cidade.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Os números são os divulgados pelas fontes citadas e podem diferir entre elas.

Fontes

Exame, “Adesão à PrEP injetável cresce, enquanto HIV tem menor incidência, diz Fiocruz” (setembro de 2026); Mix Vale, “Avanços contra o HIV testam remissão e injeções preventivas no SUS” (22/10/2026); Conselho Federal de Farmácia, “Conitec recomenda incorporação de cabotegravir injetável ao SUS” (agosto de 2026) e “Injeção semestral contra o HIV tem preço máximo de R$ 20,9 mil no Brasil” (20/10/2026); Poder360/Agência Einstein, “PrEP injetável no SUS priorizará vulneráveis” (setembro de 2026); Brasil em Folhas, “SUS pode ter PrEP injetável de longa duração ainda em 2026” (30/09/2026); CFF, relatório Unaids (29/07/2026). Os percentuais de eficácia dependem do ensaio e da população, e a fonte do número da GSK é a empresa.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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