O Pix está prestes a passar pela atualização mais ampla desde que foi lançado, em 2020. O Banco Central publicou o novo Relatório de Gestão do Pix detalhando três frentes que devem mudar a forma como você paga, recebe e é protegido dentro do sistema: pagamentos que funcionam mesmo sem internet, retenção automática de imposto no momento da compra e um placar de risco de fraude calculado por inteligência artificial para cada chave Pix do país. Nenhuma das três já está no ar — mas as três já têm desenho técnico definido, o que muda o Pix de “sistema de pagamento instantâneo” para algo mais parecido com uma infraestrutura financeira nacional completa.
O que aconteceu
O Banco Central detalhou, em seu Relatório de Gestão do Pix, três frentes de desenvolvimento em andamento. A primeira é o Pix por aproximação sem internet, usando a mesma tecnologia NFC (Near Field Communication) já usada em cartões por aproximação e em carteiras digitais de celular. A transação é registrada localmente no aparelho e sincronizada com o sistema bancário assim que a conexão de internet voltar — pensada para funcionar em transporte público, em eventos com público grande, ou em regiões do país onde a cobertura de internet móvel ainda é ruim ou inexistente.
A segunda frente é o chamado split tributário: o recolhimento automático de dois novos impostos, o IBS e a CBS (que substituem parte do atual sistema tributário brasileiro dentro da Reforma Tributária), diretamente no momento em que o Pix é processado — sem depender de nota fiscal emitida à parte ou de cálculo posterior pelo lojista. A terceira é um sistema de pontuação de risco de fraude: o Banco Central passará a processar o histórico de transações de cada chave Pix em tempo real, atribuindo uma nota de risco que é repassada às instituições financeiras, permitindo que bancos bloqueiem ou sinalizem transações antes que o golpe se complete — não apenas depois, como acontece hoje na maioria dos casos.
Nenhuma das três mudanças tem data de lançamento confirmada. O documento do Banco Central apresenta diretrizes e cronograma de desenvolvimento, não uma data de estreia para o usuário final.
Por que isso importa agora
O Pix já é o meio de pagamento mais usado no Brasil, tendo ultrapassado cartão de débito, cartão de crédito e dinheiro em espécie somados, segundo dados do próprio Banco Central. Isso significa que qualquer mudança estrutural no sistema não é um ajuste de nicho — afeta, de uma vez, a forma como a imensa maioria dos brasileiros movimenta dinheiro no dia a dia. Ao mesmo tempo, o Pix segue sendo o principal vetor de golpes financeiros do país: a modalidade de fraude que mais cresce em volume de prejuízo reportado por bancos e usuários é justamente a que usa o Pix como meio de transferência do dinheiro roubado.
As três frentes respondem, cada uma, a uma limitação real do sistema atual: a dependência de internet exclui quem está em áreas de sinal ruim ou em situações de rede sobrecarregada; a ausência de tributação automática cria uma lacuna que a Reforma Tributária, já em vigor em outras frentes, precisa fechar; e a reação a fraude hoje é majoritariamente reativa — o Mecanismo Especial de Devolução (MED) age depois que o golpe já aconteceu, tentando recuperar o dinheiro, em vez de impedir a transação na origem.
O que isso significa
Na prática, o Pix está deixando de ser só “transferência instantânea” para se tornar uma peça de infraestrutura tributária e antifraude — o que é uma mudança de escopo relevante, não apenas uma atualização de app. O Pix offline resolve um problema real de acesso; o split tributário resolve um problema real de fiscalização e sonegação; e o placar de risco de fraude tenta resolver o maior problema de confiança do sistema hoje. Nenhuma das três muda o funcionamento básico do Pix que você já conhece — a chave, o QR code, a confirmação de destinatário continuam os mesmos. O que muda é o que acontece por trás, na infraestrutura que você não vê.
Vale um ponto de atenção: como qualquer sistema de pontuação automatizada de risco, o placar de fraude por IA pode gerar bloqueios equivocados de transações legítimas, especialmente no início de operação — é um tipo de custo que costuma aparecer em sistemas antifraude baseados em machine learning, e que só fica claro na prática depois que o sistema está no ar.
Como isso afeta você
Quando essas mudanças chegarem — ainda sem data confirmada —, o Banco Central já sinaliza três ajustes práticos que vão depender de você, não apenas do banco. Primeiro, para usar o Pix offline, será necessário atualizar o aplicativo do seu banco, habilitar o NFC no celular (a mesma configuração usada para aproximar o celular na maquininha) e configurar um limite diário específico para transações feitas sem internet — provavelmente mais baixo que o limite normal, como medida de segurança, já que uma transação offline é sincronizada depois, com menos verificação em tempo real.
Segundo, se você é dono de comércio ou usa uma maquininha própria, o split tributário vai exigir atualização de software no ponto de venda para calcular e reter o IBS/CBS automaticamente — o que deve ser um processo conduzido pela adquirente ou fabricante da maquininha, mas vale acompanhar comunicados quando a implementação começar a valer para o seu segmento.
Terceiro, o placar de risco de fraude é uma camada que roda nos bastidores — você não vai ver uma “nota” na tela —, mas pode notar bloqueios preventivos mais frequentes em transações que fogem do seu padrão normal de uso (valor muito acima do comum, chave nova, horário atípico). Se isso acontecer, o caminho é o mesmo de hoje: confirmar a transação por outro canal do próprio banco, não por um link ou contato recebido por mensagem.
O que observar daqui para frente
Vale acompanhar os próximos comunicados do Banco Central e das principais fintechs e bancos digitais sobre datas de piloto e lançamento — historicamente, mudanças estruturais do Pix (como o Pix Parcelado e o Pix Automático) passaram primeiro por fase de testes restrita antes de chegar a todos os usuários. Também vale observar se o split tributário vai gerar reclamações de pequenos comerciantes sobre custo de adequação tecnológica, e se o placar de risco por IA vai reduzir de fato o volume de golpes reportados nos primeiros meses de operação — esse é o indicador mais concreto de que o sistema está funcionando como planejado, e não apenas gerando mais fricção para transações legítimas.
Recomendações do Blend
Enquanto as novidades não chegam, o hábito mais eficaz contra golpe de Pix continua sendo o mesmo: confirmar nome e CPF/CNPJ do destinatário antes de confirmar qualquer pagamento, e nunca usar links recebidos por mensagem para “resolver” um problema com sua conta.
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Fontes: Agência Brasil — Banco Central estuda interligar Pix com sistemas de outros países, ISTOÉ DINHEIRO — Pix sem internet e retenção automática de imposto, Finsiders Brasil — Pix parcelado, tokenização e IA são prioridades do Banco Central até 2026
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