O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro abre, nesta quinta-feira, sua 23ª edição do FIL — Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens, um dos eventos de artes cênicas mais longevos da cidade e reconhecido, desde 2025, como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Até o dia 27 de setembro, o festival traz ao Rio espetáculos premiados em festivais internacionais do Chile, da Argentina e da Espanha, misturando teatro, artes digitais, marionetes e narrativas migratórias sob o tema “A Poética dos Imaginários”.
O que aconteceu
O FIL 2026 começa nesta quinta-feira, 17 de setembro, e segue até 27 de setembro, com programação diária no CCBB Rio, na Rua Primeiro de Março, no Centro da cidade. À frente do festival está Karen Acioly, idealizadora, diretora geral e curadora da mostra desde sua criação — uma continuidade de curadoria pouco comum em festivais de artes cênicas, que ajuda a explicar a identidade consistente que o FIL mantém ao longo de suas 23 edições.
A programação internacional deste ano reúne três espetáculos com histórico relevante em festivais fora do Brasil. “Reminiscência”, do chileno Malicho Vaca Valenzuela, já passou pelo Festival de Avignon — um dos mais tradicionais do mundo — e por mais de 25 outros festivais internacionais; a peça combina teatro e artes digitais em um mapa digital de Santiago, investigando memória coletiva. Em cartaz nos dias 17 e 18 de setembro, às 19h, no Teatro 1.
Da Argentina vem “Con un kilo de harina”, vencedora de Melhor Espetáculo de Objetos na FETEN 2022 (Feira Europeia das Artes Cênicas para a Infância e a Juventude, um dos principais circuitos de teatro infantil da Europa). Com apenas um ator, farinha e utensílios de cozinha em cena, o espetáculo reconstrói a história migratória de três gerações de uma família. Tem sessões nos dias 18 (10h30, voltada a escolas) e 19 de setembro (16h30), no Teatro 3.
Já a Espanha traz “NIL”, espetáculo de marionetes sem palavras sobre autossuperação, premiado no Festival Titirijai e no Festival Internacional de Marionetes de Batumi, na Geórgia. Em cartaz nos dias 17 e 19 de setembro, às 17h, no Teatro 1. Todas as apresentações internacionais incluem bate-papos com os artistas após o espetáculo — uma oportunidade de contato direto com os criadores, pouco comum em festivais desse porte.
Os ingressos para os teatros custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia); sessões de cinema são gratuitas, assim como o acesso à Rotunda do CCBB e a atividades na Sala 26 e no auditório do 4º andar, mediante inscrição prévia pela plataforma Sympla.
Por que aconteceu
O FIL nasceu e se sustenta ao longo de mais de duas décadas com uma proposta clara: usar o Rio de Janeiro como ponto de encontro entre diferentes linguagens artísticas — teatro, dança, artes digitais, música, cinema — e diferentes tradições culturais, priorizando obras internacionais que dificilmente chegariam ao circuito comercial brasileiro por conta própria. O reconhecimento como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Rio de Janeiro em 2025 reflete essa trajetória: não se trata de um evento pontual, mas de uma instituição cultural consolidada na cidade, com identidade e curadoria contínuas desde sua fundação.
A escolha de espetáculos vindos do Chile, da Argentina e da Espanha para esta edição também não é aleatória. Os três países têm cenas de artes cênicas particularmente respeitadas internacionalmente em suas respectivas linguagens — o Chile em teatro contemporâneo com forte componente digital, a Argentina em teatro de objetos e narrativa migratória, a Espanha em uma tradição consolidada de teatro de marionetes. Trazer justamente obras premiadas nesses circuitos específicos permite ao público carioca ter acesso a linguagens cênicas que raramente circulam fora dos festivais internacionais especializados de cada uma delas.
O que isso significa
Para o Rio de Janeiro, festivais como o FIL cumprem uma função que vai além do entretenimento pontual: eles ajudam a consolidar a cidade como um polo relevante de circulação internacional de artes cênicas na América Latina, atraindo artistas, curadores e público interessado especificamente nesse tipo de produção, não apenas turistas em busca de praia e paisagem. A realização simultânea de outros eventos culturais na cidade ao longo de setembro — como a atual Semana de Arte do Rio, que já reuniu iniciativas como o RioHarpFestival em sua versão latino-americana — reforça essa imagem do mês como um momento de concentração cultural relevante na cidade.
O caráter gratuito de parte significativa da programação (cinema, Rotunda e atividades da Sala 26) também é um dado relevante: ao contrário de festivais que dependem inteiramente de ingressos pagos, o FIL mantém uma porta de entrada acessível para quem quer conhecer a programação sem necessariamente arcar com o custo dos espetáculos de teatro principal — uma escolha de curadoria que amplia o alcance social do evento dentro da própria cidade.
Como isso afeta você
Se você mora no Rio ou pretende visitar a cidade nas próximas duas semanas, vale organizar a agenda com antecedência: os espetáculos internacionais têm poucas sessões cada (a maioria com apenas duas apresentações ao longo de todo o festival), o que tende a gerar procura concentrada e esgotamento rápido de ingressos, especialmente para “NIL” e “Reminiscência”, que já chegam ao Rio com reputação consolidada em festivais internacionais de peso.
Para famílias com crianças, “Con un kilo de harina” e a própria estrutura de programação voltada a escolas indicam que o festival também pensa em público infantojuvenil, embora vitrine principal do FIL costume ser majoritariamente voltada a um público adulto interessado em linguagens cênicas experimentais — vale checar a classificação indicativa de cada espetáculo antes de planejar uma ida em família.
Para quem se interessa por artes cênicas de forma mais ampla, os bate-papos com os artistas após cada apresentação internacional são um diferencial pouco explorado por festivais desse porte: é uma chance real de entender o processo criativo por trás de obras que dificilmente teriam esse tipo de contato direto com o público brasileiro fora desse contexto específico.
O que observar daqui pra frente
Vale acompanhar se o FIL divulga, ao longo dos próximos dias, programação adicional de artes digitais, música e cinema — a curadoria do festival tradicionalmente vai além do teatro, e o site oficial (fil.art.br) costuma atualizar a agenda completa conforme o festival avança.
Também merece atenção como a concentração de eventos culturais no Rio ao longo de setembro — FIL, Semana de Arte do Rio e outros festivais realizados no mesmo período — se conecta ou não em termos de público e cobertura, um indicativo de se a cidade está conseguindo transformar essa concentração de programação em um calendário cultural mais coordenado e reconhecível para além de setembro.
Por fim, vale observar se a 23ª edição do FIL mantém o mesmo padrão de reconhecimento internacional em edições futuras, consolidando ainda mais seu papel como ponte entre a cena de artes cênicas do Rio de Janeiro e circuitos internacionais de festivais premiados.
Vale ainda um último ponto de atenção para quem acompanha política cultural: o reconhecimento do FIL como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Rio em 2025 costuma vir acompanhado, em outros casos semelhantes na cidade, de algum nível de proteção orçamentária ou prioridade em editais públicos de fomento à cultura — um desdobramento que ainda não foi confirmado oficialmente para o festival, mas que faria sentido observar nos próximos ciclos de editais da Secretaria de Cultura do município e do estado.
Fontes consultadas: Diário Carioca; Semana Pop; CCBB Rio de Janeiro.
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