Um prédio modernista de 1953, no coração do Centro do Rio, ganhou nova vida neste mês como palco da maior mostra de arquitetura e design da América Latina. A CASACOR Rio de Janeiro chega à sua 35ª edição ocupando o Edifício Aliança da Bahia, com um tema que soa quase como um contraponto proposital ao ritmo acelerado do dia a dia: “Mente e Coração”.
O que aconteceu
A CASACOR Rio de Janeiro 2026 está em cartaz desde 15 de setembro e segue até 8 de novembro, ocupando o Edifício Aliança da Bahia, na Rua Araújo Porto Alegre, no Centro da cidade — bem em frente ao Palácio Gustavo Capanema, um dos marcos da arquitetura modernista brasileira. A mostra reúne 45 ambientes distribuídos por cinco andares do edifício, entre estúdios, lofts, apartamentos e áreas comuns de convivência, assinados por arquitetos e designers de diferentes gerações.
Entre os nomes participantes está Jairo de Sender, que retorna à mostra 35 anos depois de ter participado da primeira edição da CASACOR no Rio, em 1991 — um fechamento de ciclo simbólico para uma edição que celebra justamente três décadas e meia de existência do evento na cidade. Ao lado dele, nomes consolidados como Paula Neder e Sérgio Conde Caldas dividem espaço com talentos mais recentes, como Cadé Marino e Diego Raposo. A mostra funciona de terça a domingo, das 12h às 22h (venda de ingressos até as 20h), com entrada de R$ 120 (inteira) ou R$ 60 (meia), e gratuidade para crianças até 10 anos.
Por que aconteceu
O tema escolhido para esta edição, “Mente e Coração”, não é um acaso: reflete uma discussão que vem ganhando força entre arquitetos e designers nos últimos anos sobre o papel da casa diante de uma vida cada vez mais hiperconectada. A proposta da mostra é tratar o lar não apenas como um espaço funcional, mas como um refúgio deliberado — um lugar pensado para desacelerar, reconectar relações familiares e cuidar da saúde mental, num contraponto direto ao ritmo imposto pelas telas e pela conectividade permanente que caracteriza o cotidiano urbano de 2026.
Essa reflexão aparece de forma concreta em vários dos ambientes expostos. O ambiente “Um Lugar Para Todos”, assinado por Jairo de Sender, foi projetado pensando em um casal acima dos 60 anos, no qual um dos moradores usa cadeira de rodas — um exercício de design inclusivo para diferentes corpos e diferentes fases da vida, em vez do padrão mais comum de ambientes pensados só para moradores jovens e sem limitações físicas. Já a Casa Brastemp, de Gisele Taranto, explora a convivência entre gerações dentro de uma mesma casa, com tecnologia usada para facilitar (não substituir) a conexão familiar, e inclui uma mesa de jantar acessível para cadeira de rodas.
Há também um cuidado sensorial evidente em ambientes como a Casa Glade, de Paula Neder: um espaço integrado de 96 m² que usa guardanapos de linho bordados à mão retratando ingredientes de perfumaria, unindo design de interiores a uma experiência sensorial mais ampla — um exemplo de como a mostra tenta ir além da estética pura e discutir como os espaços afetam emocionalmente quem vive neles.
O que isso significa
Para o mercado de arquitetura e design no Brasil, a CASACOR segue funcionando como um termômetro de tendências que, historicamente, chegam ao consumidor final com alguns anos de atraso — soluções e conceitos que aparecem primeiro nos ambientes conceituais da mostra costumam, com o tempo, influenciar projetos residenciais mais convencionais e até lançamentos do mercado imobiliário.
A ênfase em acessibilidade e convivência intergeracional presente nesta edição também acompanha uma mudança demográfica real: o Brasil está envelhecendo, e a proporção de domicílios com mais de uma geração vivendo sob o mesmo teto (ou com necessidade de adaptação para pessoas com mobilidade reduzida) tende a crescer nos próximos anos. Ver esse tipo de solução sendo tratado como protagonista de uma mostra de grande visibilidade, e não como nicho especializado, sinaliza uma mudança de prioridade dentro do próprio setor.
Como isso afeta você
Se você mora no Rio de Janeiro ou está de passagem pela cidade até 8 de novembro, a CASACOR é uma oportunidade de ver de perto soluções de design que dificilmente aparecem juntas em um só lugar — do detalhe sensorial de um guardanapo bordado à solução estrutural de uma casa pensada para acomodar mobilidade reduzida sem parecer um ambiente hospitalar. Vale reservar pelo menos duas ou três horas para percorrer os 45 ambientes com calma, já que a proposta da mostra é justamente incentivar a desaceleração, não a pressa.
Para quem está pensando em reformar a própria casa, ou mesmo construir do zero, vale prestar atenção especial aos ambientes voltados para acessibilidade e convivência entre gerações — são soluções que, mesmo vistas num contexto de mostra conceitual, costumam trazer ideias práticas e adaptáveis para orçamentos bem menores do que os investidos nos ambientes expostos.
Vale um alerta prático: por ocupar um prédio histórico tombado no Centro da cidade, o acesso de carro e estacionamento na região tende a ser mais limitado nos fins de semana — vale considerar transporte público ou aplicativos de mobilidade para chegar ao evento, especialmente durante o horário de maior movimento, entre o início da tarde e o fim da noite.
Para quem prefere economizar, o térreo e a sobreloja do edifício costumam reunir bistrôs, bares, cafés e lojas com acesso gratuito, mesmo para quem não compra o ingresso da mostra completa — uma forma de conhecer parte da revitalização do prédio e da região sem necessariamente pagar pela exposição de ambientes assinados. Já para quem decide comprar o ingresso completo, vale considerar ir em um dia de semana, quando o fluxo de visitantes tende a ser menor e dá para conversar com mais calma com os arquitetos e designers que costumam circular pelos próprios ambientes em horários específicos, geralmente divulgados nas redes sociais oficiais do evento.
O que observar daqui para frente
Vale acompanhar se as soluções de acessibilidade e convivência intergeracional apresentadas nesta edição da CASACOR realmente influenciam projetos residenciais mais amplos no Rio de Janeiro nos próximos anos, ou se permanecem restritas ao universo dos ambientes conceituais de mostras como esta — a diferença costuma aparecer na velocidade com que construtoras e incorporadoras adaptam suas plantas padrão.
Também vale observar se outras edições da CASACOR pelo Brasil (a mostra acontece em diversas capitais e cidades ao longo do ano, com datas e temas próprios) seguem a mesma linha temática de “Mente e Coração”, ou se cada cidade desenvolve sua própria leitura sobre o papel da casa diante da vida hiperconectada — o que ajudaria a entender se essa é uma tendência nacional consolidada ou uma leitura específica da equipe curadora do Rio de Janeiro.
Por fim, vale acompanhar o próprio destino do Edifício Aliança da Bahia depois do encerramento da mostra em novembro. Prédios históricos ocupados temporariamente por eventos de grande porte, como já aconteceu em outras edições da CASACOR em diferentes cidades, costumam ganhar visibilidade suficiente para atrair novos usos comerciais ou culturais permanentes depois que as exposições terminam — o que pode significar mais um capítulo na revitalização do Centro do Rio, região que já vem recebendo atenção crescente de projetos culturais e imobiliários nos últimos anos.
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Fontes: Visit.Rio, Viva Decora (Vivadecora Arquitetura).
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