Na noite de 13 de abril de 2026, algo aconteceu pela primeira vez em mais de 130 anos de história do Guia Michelin: dois restaurantes da América Latina receberam a cotação máxima de três estrelas. E os dois ficam em São Paulo.
O Evvai, do chef Luiz Filipe Souza, e o Tuju, do chef Ivan Ralston, entraram para um clube de menos de 160 restaurantes no mundo inteiro. Para entender o peso disso: o Guia Michelin está presente em dezenas de países há mais de um século, e nunca antes havia concedido sua nota máxima a um estabelecimento latino-americano.
O que são as 3 estrelas Michelin — e por que importam tanto
O Guia Michelin nasceu em 1900 como um guia de viagens para motoristas franceses. Com o tempo, sua seção de restaurantes tornou-se a referência mais respeitada da alta gastronomia mundial. O sistema de estrelas funciona assim: uma estrela indica um restaurante de muito boa qualidade; duas estrelas, uma cozinha excelente que vale um desvio no caminho; três estrelas, uma cozinha excepcional que justifica uma viagem especial.
Três estrelas não é apenas um prêmio. É um passaporte para o mapa gastronômico global. Restaurantes com essa distinção atraem viajantes de todos os continentes, elevam o turismo da cidade e transformam o chef em referência mundial.
Evvai: a precisão italiana com o borogodó brasileiro
O Evvai, instalado em um sobrado azul no bairro de Pinheiros, em São Paulo, é a expressão de quase uma década de trabalho do chef Luiz Filipe Souza em torno de um conceito que ele chama de Oriundi — a fusão da precisão técnica da imigração italiana com a riqueza dos ingredientes brasileiros.
O restaurante conquistou sua primeira estrela em 2018 e a segunda em 2024. Apenas com menu degustação, impressiona pela criatividade: pratos como a moqueca branca com lula e pupunha, bacalhau com tucupi e picolé de milho com caviar mostram como é possível elevar ingredientes nacionais a um nível de sofisticação raramente visto. As sobremesas, assinadas pela chef confeiteira Bianca Mirabili — eleita a melhor da América Latina em 2025 — são um capítulo à parte.
No palco da cerimônia, Luiz Filipe foi direto: “Este é um dos momentos mais lindos da gastronomia. Nunca imaginei que veríamos dois restaurantes serem premiados com três estrelas, ao mesmo tempo, no Brasil.”
Tuju: a cozinha que respira com a natureza
O Tuju é o único restaurante brasileiro com um instituto de pesquisa interno. Sob a batuta do chef Ivan Ralston, a casa opera em compasso com os ciclos da natureza, dividindo seu menu em temporadas climáticas — Umidade, Chuva, Ventania e Seca. Cada prato é construído a partir do que a terra oferece naquele momento, em parceria com pequenos produtores e uma cadeia sustentável rigorosa.
Instalado em um projeto arquitetônico de três andares, o Tuju também é detentor da Estrela Verde Michelin — distinção criada para reconhecer práticas sustentáveis exemplares. Para Katherina Cordás, sócia e diretora do Centro de Pesquisa e Criatividade do restaurante, o prêmio vai além das paredes do salão: “Esse prêmio mostra que o Brasil pode e deve chegar onde quiser.”
O que esse momento muda — para além dos restaurantes
O Brasil tem 11 anos de Guia Michelin. Nesse período, construiu uma cena gastronômica que hoje soma 19 restaurantes com uma estrela, quatro com duas estrelas e agora dois com três. Nenhum restaurante perdeu estrelas na edição 2026 — sinal de maturidade e consistência.
Mas o impacto vai além dos números. A conquista das três estrelas por Evvai e Tuju representa o reconhecimento de que a cozinha brasileira — com seus ingredientes únicos, sua diversidade regional e sua criatividade — chegou ao mais alto nível de excelência global. Não como imitação de nenhuma outra culinária, mas como expressão genuína de quem somos.
Para o leitor que não frequenta restaurantes de menu degustação, a mensagem é igualmente relevante: quando um país eleva sua gastronomia ao topo mundial, isso valoriza toda a cadeia — dos pequenos produtores aos mercados de bairro, das feiras livres às cozinhas domésticas. Comer bem, com ingredientes brasileiros e consciência sobre a origem do que está no prato, é uma forma de participar desse movimento.
O Brasil no mapa gastronômico mundial em 2026
| Distinção | Restaurantes | Cidade |
|---|---|---|
| Três estrelas | Evvai, Tuju | São Paulo |
| Duas estrelas | D.O.M., Lasai, Oro | SP / RJ |
| Uma estrela | 19 restaurantes, incluindo Madame Olympe (novo) | SP / RJ |
| Estrela Verde | Tuju, Corrutela, A Casa do Porco | São Paulo |
Fontes: Guia Michelin 2026, Forbes Brasil, Exame, Panrotas.