Em dois pregões, a Bolsa brasileira passou de uma disparada histórica a uma realização de lucros, e o dólar, que beirava R$ 5,22 na sexta-feira, fechou abaixo de R$ 5 pela primeira vez em quase cinco meses. Por trás dos números está o resultado do primeiro turno da eleição presidencial, que alterou o que o mercado esperava. Este texto não tenta prever o que vem a seguir. Ele organiza o que já aconteceu, explica por que os preços reagem assim e mostra o que um investidor comum pode fazer, ou evitar, depois de dias tão agitados.
O que aconteceu
Na sexta-feira, 2 de outubro, véspera da votação, o Ibovespa, principal índice da Bolsa, fechou perto de 192 mil pontos, e o dólar, em R$ 5,2175. No domingo, o primeiro turno mostrou Flávio Bolsonaro (PL) à frente, com 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 99,97% das urnas apuradas. Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro. O resultado contrariou as últimas pesquisas divulgadas antes da votação, que indicavam uma pequena vantagem de Lula, segundo a cobertura da Forbes Brasil.
Na segunda-feira, 5, o mercado reagiu com força. O Ibovespa subiu 7,7% e fechou em 206.911,89 pontos, recorde histórico de fechamento. Durante o dia, chegou a 209.605,70 pontos, o maior nível já registrado em uma sessão, e o volume financeiro somou R$ 102,7 bilhões. O dólar à vista caiu 4,12%, a R$ 5,0022, a menor cotação de fechamento desde 21 de maio, e passou a acumular queda de 8,87% no ano. No exterior, o EWZ, principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, avançava cerca de 12,6% no fim da tarde, e os juros futuros recuaram.
Na terça-feira, 6, veio o movimento contrário, em escala bem menor. O Ibovespa caiu 0,52%, a 205.835,29 pontos, depois de oscilar entre 204.725 e 209.522 pontos, e o volume foi de R$ 58,06 bilhões. O dólar recuou mais 0,55% e fechou a R$ 4,9745, a menor cotação em quase cinco meses. Mesmo com a queda, o índice seguiu bem acima dos 200 mil pontos.
Por que aconteceu
Preços de ativos se movem pela diferença entre o que acontece e o que os investidores esperavam. Como o resultado do primeiro turno foi diferente do que muitas pesquisas indicavam, a reavaliação foi rápida e concentrada em um único pregão. Analistas citados na imprensa apontaram que o mercado passou a enxergar maior probabilidade de ajustes nas contas públicas e de políticas favoráveis às empresas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Essa é a leitura de bancos e consultorias, e não um fato: o desfecho depende do segundo turno e, depois dele, do que o governo eleito conseguir aprovar no Congresso.
O mecanismo por trás da queda do dólar e dos juros futuros é a redução do chamado prêmio de risco. Prêmio de risco é o retorno extra que investidores exigem para aplicar em um país visto como mais incerto. Quando essa exigência diminui, o dinheiro entra, o real se valoriza e os juros cobrados para prazos mais longos caem. Segundo a Forbes Brasil, o JPMorgan elevou a recomendação das ações brasileiras para “overweight” (acima da média da carteira de referência) e o UBS afirmou, em nota, que o resultado aumentou a chance de uma melhora nas expectativas fiscais. Setores sensíveis a juros mais baixos, como varejo e construtoras, tiveram destaque na alta.
Já o recuo de terça-feira é descrito pelos analistas como realização de lucros: investidores que compraram antes da alta vendem para garantir o ganho, e outros revisam preços que ficaram esticados. Foi o que disseram especialistas ouvidos pela Forbes Brasil e pela CNN Brasil. Depois de um salto de quase 8% em um dia, esse ajuste é comum e não indica, por si só, mudança de tendência.
O que isso significa
O primeiro ponto é que recorde não é garantia de ganho futuro. O Ibovespa mede o preço de uma cesta de ações em determinado momento, e quem comprou na segunda-feira pagou um preço quase 8% mais alto do que quem comprou na sexta. Se vai subir, lateralizar ou corrigir, ninguém sabe.
O segundo ponto é que movimentos de eleição tendem a ser seguidos de volatilidade, e isso já aparece nos números: o volume de negociação foi de R$ 102,7 bilhões na segunda e de R$ 58,06 bilhões na terça, e o índice variou 7,7% e depois 0,52%. Até o segundo turno, cada pesquisa e cada dado econômico pode mexer nos preços.
O terceiro ponto é que o dólar abaixo de R$ 5 não é, sozinho, uma tendência. A moeda acumula queda de quase 9% no ano, mas já voltou a ficar acima de R$ 5 em outros momentos de 2026. Para a economia real, um dólar mais baixo tende a baratear importados e insumos, de forma gradual e incerta, mas as empresas exportadoras recebem menos reais por cada dólar vendido.
Como afeta você
Se você investe em renda fixa pós-fixada, como Tesouro Selic, CDBs ou fundos atrelados ao CDI, o rendimento acompanha a taxa Selic, que está em 13,75% ao ano desde a reunião do Copom de 16 de setembro, e não muda com o noticiário eleitoral. Já quem tem títulos prefixados ou atrelados à inflação viu o preço de mercado desses papéis subir quando os juros futuros recuaram. Esse ganho só se concretiza se você vender antes do vencimento. Segurando até o fim, você recebe a taxa que contratou, independentemente das oscilações no caminho.
Quem tem ações ou fundos de ações sentiu a alta, e pode sentir também a volta, caso haja novas correções. O dólar baixo afeta principalmente quem tem viagem marcada, planeja comprar eletrônicos ou outros produtos importados ou tem despesas em moeda estrangeira.
Algumas regras de bom senso valem para qualquer investidor depois de semanas assim. Não decida por manchete: um dia de forte alta ou de forte queda raramente deve mudar uma estratégia pensada para anos. Mantenha a reserva de emergência em aplicações de liquidez diária e sem risco de perda, para não precisar vender nada em dia ruim. Ao comprar ou vender ações em dias de oscilação grande, prefira ordens com preço limite, que evitam execução a preços muito diferentes dos que você viu na tela. Evite alavancagem e operações de curtíssimo prazo se não tiver experiência. E desconfie de perfis e grupos de mensagens que prometem lucro certo aproveitando a Bolsa em recorde: períodos de muita atenção pública costumam atrair golpistas.
Este texto tem caráter informativo e educacional. Não é recomendação de investimento e não considera seu perfil, seus objetivos nem sua situação financeira. Para decisões sobre o seu dinheiro, converse com um profissional habilitado.
O que observar daqui para frente
O primeiro marco é o segundo turno, em 25 de outubro. Até lá, vale acompanhar o comportamento do Ibovespa em torno dos 200 mil pontos, a cotação do dólar em relação a R$ 5 e o ritmo do volume de negociação, que indica se o movimento de segunda-feira foi pontual ou se atraiu investidores de forma duradoura.
O segundo ponto é a agenda econômica, que segue independente da política: a próxima reunião do Copom está marcada para 3 e 4 de novembro, e a última do ano, para 8 e 9 de dezembro e o boletim Focus do Banco Central, divulgado às segundas-feiras, mostra como os economistas revisam suas projeções.
Em resumo, os dois pregões mostraram uma reação forte e uma correção moderada, mas não o desfecho da eleição nem uma tendência definida. Para o investidor de longo prazo, a pergunta mais útil costuma ser outra: minha carteira está adequada ao meu prazo e ao meu perfil de risco, independentemente de quem ganhe?
Fontes
Agência Brasil, “Dólar cai a R$ 5, e bolsa sobe quase 8% após primeiro turno” (05/10/2026); Forbes Brasil, “Ibovespa fecha a 206 mil pontos pela 1ª vez após Flávio Bolsonaro liderar 1º turno” (05/10/2026) e “Ibovespa cai após rali eleitoral e dólar recua para menor cotação em 5 meses” (06/10/2026); CNN Brasil, “Bolsa realiza lucros após euforia com 1º turno; dólar fecha abaixo de R$ 5” (06/10/2026); apuração do 1º turno pelo TSE (99,97% das urnas); Banco Central, decisão do Copom de 16/09/2026 e calendário de reuniões de 2026.
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