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Balanços dos bancos no 3T26: por que a inadimplência de 6,6% virou o número mais observado

Balanços dos bancos no 3T26: por que a inadimplência de 6,6% virou o número mais observado
· 7 min de leitura

A temporada de balanços dos grandes bancos brasileiros começa nesta semana, e o centro das atenções não é só o lucro: é a inadimplência. Segundo o Banco Central, a inadimplência no crédito de recursos livres chegou a 6,6% em agosto, o maior nível da série iniciada em março de 2011, ante 6,4% em julho. O Bradesco abre o calendário na quinta-feira, 22 de outubro, e o Banco do Brasil é visto por analistas como o ponto mais sensível. Este texto reúne o que as fontes informam sobre as projeções, explica por que a qualidade do crédito pesa tanto e mostra o que observar nos próximos resultados, sem recomendar investimento.

O que aconteceu

O calendário divulgado pela Reuters e pelo InfoMoney em 21 de outubro traz o Bradesco em 22 de outubro, o Santander Brasil em 28 de outubro, o Itaú Unibanco em 3 de novembro, o BTG Pactual em 10 de novembro, o Banco do Brasil em 11 de novembro e o Nubank em 12 de novembro. As fontes divergem sobre o horário da divulgação do Bradesco, e por isso vale conferir a agenda de relações com investidores do banco.

As projeções de lucro do consenso da LSEG, citadas pelo InfoMoney, são de R$ 7,1 bilhões para o Bradesco, R$ 3,2 bilhões para o Santander, R$ 12,6 bilhões para o Itaú, R$ 5,2 bilhões para o BTG e R$ 3,7 bilhões para o Banco do Brasil. Para o Bradesco, o consenso da Bloomberg citado pelo Money Times indica lucro líquido ajustado de R$ 7,145 bilhões, alta de 15% sobre o mesmo período do ano passado, e retorno sobre o patrimônio (ROE) estimado em 15,9%, ante 14,7% um ano antes e 16,2% no trimestre anterior. O Goldman Sachs estima ROE de 15,5% e margem financeira cerca de 3% maior no trimestre.

No Banco do Brasil, as estimativas se afastam bastante. Enquanto o consenso da LSEG é de R$ 3,7 bilhões, o BTG Pactual não descarta queda de 50% a 60% no lucro antes de impostos, o que levaria o lucro líquido a cerca de R$ 1,9 bilhão, e o Bradesco BBI projeta R$ 1,8 bilhão, segundo as reportagens. A pressão vem do agronegócio, segundo o BTG, que projeta provisões crescendo de um dígito alto a dois dígitos baixos no trimestre.

Por que aconteceu

A razão da cautela é a combinação de endividamento alto das famílias e inadimplência elevada. O Goldman Sachs, citado pelo InfoMoney, calcula que a inadimplência do sistema financeiro subiu de 3,0% no fim de 2024 para 4,6% em junho de 2026, e que cerca de 60% dessa alta reflete deterioração efetiva da qualidade dos ativos, e não apenas um efeito contábil. Os números de 6,6% e 4,6% medem coisas diferentes, o primeiro no segmento de recursos livres e o segundo no sistema como um todo, e por isso não devem ser comparados diretamente.

Quando a inadimplência sobe, os bancos precisam separar mais dinheiro para possíveis perdas, as chamadas provisões, e isso reduz o lucro. O Citi, citado pelo Money Times, estima o custo de risco do Bradesco em torno de 3,6% e diz que a inadimplência pode continuar subindo em carteiras específicas, como crédito emergencial, agronegócio e cartões para faixas de renda mais baixas. A XP vê receitas em expansão saudável, mas qualidade de crédito pressionada, e lembra que o aumento de capital de quase R$ 10 bilhões do Bradesco pode pesar sobre o ROE no curto prazo.

Há também o ambiente regulatório. Segundo a Reuters, o Banco Central estuda medidas para conter o endividamento, entre elas maiores exigências de capital e de compulsórios, mudanças no IOF e um adicional contracíclico de capital. São estudos, e as fontes não informam prazos nem decisões.

O que isso significa

Um balanço de banco tem peças diferentes das de uma empresa comum. A receita principal, a margem financeira, vem do crédito, e uma parte do lucro desaparece quando o crédito se deteriora. Por isso, lucro maior que o do ano anterior pode conviver com piora da qualidade da carteira, e lucro menor pode refletir uma decisão prudente de provisionar mais. A leitura depende de olhar vários números juntos, e não só a última linha.

As projeções também importam menos pelo valor exato e mais pela comparação com o resultado. Se um banco entrega lucro acima do consenso, mas com provisões muito maiores, o mercado pode ler o resultado de forma diferente do que a manchete sugere. A Reuters lembra que as ações dos grandes bancos subiram fortemente em 5 de outubro, quando BTG Pactual avançou 22,52%, Bradesco 13,57%, Banco do Brasil 11%, Itaú 10,37% e Santander 2,63%, e o Ibovespa subiu 7,7%. A reportagem associa o movimento ao resultado do primeiro turno das eleições, e aponta que a reação do mercado após os balanços pode depender do desfecho do segundo turno, em 25 de outubro. Este texto não analisa o tema eleitoral e não toma partido.

Como afeta você

Para quem investe em ações de bancos, a temporada traz informação, mas também volatilidade: o preço pode se mover bastante num único dia, em qualquer direção. Para quem é cliente, o efeito aparece de outro jeito. Bancos que enfrentam mais inadimplência tendem a ser mais seletivos ao conceder crédito e podem rever limites, mas as fontes consultadas não afirmam que isso vá acontecer agora, e o texto não faz essa previsão.

Para quem está endividado, o dado de 6,6% é um lembrete de que o problema é amplo, e de que renegociar cedo costuma ser mais barato do que esperar. As fontes não trazem orientação específica sobre renegociação, e essa decisão depende da situação de cada pessoa. Para quem investe em renda fixa, o ponto é outro: bancos são emissores de CDBs, LCIs e LCAs, e a qualidade do crédito do emissor faz parte do risco. Este texto não indica produto nem emissor.

O que observar daqui para frente

O primeiro ponto é o Bradesco, na quinta-feira: lucro frente ao consenso, ROE, margem financeira, provisões e a mensagem sobre inadimplência em cartões, crédito emergencial e agronegócio. O segundo é o Santander, em 28 de outubro, para o qual o BBI e o Safra projetam novo recuo do lucro frente ao trimestre anterior. O terceiro é o Itaú, em 3 de novembro, visto pelo Goldman Sachs como o destaque do setor em qualidade de carteira.

O quarto é o Banco do Brasil, em 11 de novembro, em razão da distância entre as projeções, de R$ 1,8 bilhão a R$ 3,7 bilhões. O quinto é o Banco Central: o próximo dado de inadimplência e qualquer decisão sobre as medidas de capital e compulsórios em estudo. Nada disso está decidido, e as projeções podem mudar até a divulgação de cada balanço.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, não substitui a orientação de um profissional certificado e não constitui recomendação de investimento. Os números são os divulgados pelas fontes citadas e podem diferir entre elas.

Fontes

InfoMoney, “Balanços do 3T26: o que esperar de Santander, Bradesco, Itaú e Banco do Brasil?” e “Temporada de balanços de bancos começa com foco em inadimplência” (ambos de 21/10/2026, com Reuters); Forbes Brasil, “O que esperar da temporada de balanços dos grandes bancos no 3º trimestre” (21/10/2026, Reuters); Money Times, “Bradesco (BBDC4): mercado prevê alta no lucro no 3T26” (21/10/2026); Paranashop, “Bolsa da semana” (19/10/2026). Os horários de divulgação do Bradesco divergem entre as fontes.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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