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Saúde

Anvisa Proíbe o NotShake Dias Depois de a NotCo Vender sua Operação Brasileira ao Grupo Italiano Ferrara

Anvisa Proíbe o NotShake Dias Depois de a NotCo Vender sua Operação Brasileira ao Grupo Italiano Ferrara
· 7 min de leitura

A Anvisa proibiu, na semana passada, a fabricação, venda e distribuição em todo o país das quatro versões do NotShake, bebida proteica vegana da marca NotCo. O motivo não foi um risco imediato à saúde identificado em testes, mas uma combinação de falhas regulatórias: prazo de registro perdido, estudo de estabilidade insuficiente e um ingrediente cujo uso não foi devidamente comprovado. O caso chama atenção também pelo momento em que ocorre — dias depois de a própria NotCo vender sua operação brasileira para um grupo italiano.

O que aconteceu

Em 18 de setembro, a Anvisa publicou no Diário Oficial da União uma resolução proibindo, em todo o território nacional, a fabricação, distribuição, propaganda, comercialização e uso dos quatro sabores do NotShake: Morango com Tâmara, Baunilha com Coco, Chocolate e Café Caramelo. A proibição abrange todos os lotes e datas de validade já fabricados, e determina que consumidores parem de consumir o produto e o devolvam ao ponto de compra.

Segundo a agência, a decisão foi motivada por “irregularidades relacionadas ao enquadramento como suplementos alimentares” da linha NotShake. Especificamente, a Anvisa apontou quatro problemas: a empresa não concluiu o registro do produto como suplemento alimentar dentro do prazo estabelecido, que venceu em 1º de setembro de 2026; os estudos de estabilidade apresentados não foram suficientes para comprovar que o produto mantém suas características ao longo de toda a validade declarada na embalagem; o uso de suco concentrado de repolho como ingrediente não tinha comprovação técnica adequada; e a alegação “zero lactose” estampada no rótulo não seguia as regras de rotulagem exigidas para esse tipo de declaração.

O NotShake é fabricado pela NotCo Brasil — mas, segundo reportagens publicadas nos dias que antecederam a proibição, a operação brasileira da companhia chilena NotCo havia sido vendida, na semana anterior (12 de setembro), ao grupo de investimentos italiano Ferrara, como parte de uma reestruturação global mais ampla da matriz chilena, que vem se transformando de fabricante de alimentos para uma empresa de licenciamento de tecnologia de inteligência artificial. A NotCo já havia adotado estratégia semelhante de saída da produção direta de alimentos em outros países, como Argentina, Uruguai, México e Estados Unidos. Segundo o mesmo levantamento, os cerca de 50 funcionários da operação brasileira mantiveram seus postos sob a nova gestão, e toda a linha de produtos vendida no Brasil sob as marcas NotMilk, NotShake, NotCreme e NotMayo passou a ser administrada pela Ferrara.

Por que aconteceu

O motivo de fundo da proibição não é, segundo a Anvisa, um risco concreto e comprovado à saúde do consumidor — a agência não relatou casos de intoxicação, reação alérgica grave ou contaminação associados ao produto. O que motivou a decisão foi, em essência, uma falha de conformidade regulatória: a empresa não cumpriu, dentro do prazo, as exigências documentais e técnicas necessárias para manter o produto legalmente classificado e comercializado como suplemento alimentar no Brasil.

Esse tipo de exigência existe justamente para garantir que produtos vendidos como suplementos — categoria que costuma despertar interesse de consumidores preocupados com saúde, dieta ou desempenho físico — realmente entreguem o que prometem, de forma segura e consistente, ao longo de todo o período em que ficam disponíveis nas prateleiras. Estudos de estabilidade, por exemplo, existem para garantir que um produto mantido nas condições normais de armazenamento e transporte não perca eficácia, não se degrade de forma perigosa nem sofra alterações que comprometam sua segurança antes do fim da validade declarada.

A troca de controle acionário da operação brasileira, ocorrida poucos dias antes da proibição, é um dado de contexto relevante, ainda que a Anvisa não tenha estabelecido relação direta entre os dois eventos: processos regulatórios como registro de suplemento e comprovação de estabilidade costumam levar meses para serem concluídos, e mudanças de gestão em uma empresa — especialmente quando associadas a uma reestruturação estratégica mais ampla, como a que a NotCo vem promovendo globalmente — podem, na prática, atrasar ou desorganizar processos regulatórios que já estavam em andamento sob a administração anterior.

O que isso significa

Para o mercado de suplementos alimentares e alimentos funcionais no Brasil — um setor que cresceu rapidamente nos últimos anos, impulsionado por interesse crescente em nutrição, produtos veganos e conveniência —, o caso reforça um padrão que a Anvisa já vinha sinalizando: o prazo de 1º de setembro de 2026 para regularização de produtos enquadrados como suplementos alimentares não era apenas uma formalidade burocrática, mas uma exigência que a agência está, de fato, disposta a fazer cumprir com proibições de venda, mesmo para marcas com investimento e visibilidade internacional relevantes, como é o caso da NotCo, avaliada em cerca de US$ 1,5 bilhão e apoiada por investidores como Jeff Bezos.

Para a Ferrara, grupo italiano que assumiu a operação brasileira da NotCo há apenas cerca de uma semana, o episódio representa um desafio regulatório imediato, herdado de um processo que muito provavelmente já estava em curso antes da transição de controle — um lembrete de que aquisições de empresas do setor de alimentos e suplementos carregam, junto com a marca e a estrutura operacional, todas as pendências regulatórias associadas aos produtos adquiridos.

Como isso afeta você

Se você tem em casa qualquer uma das quatro versões do NotShake — Morango com Tâmara, Baunilha com Coco, Chocolate ou Café Caramelo —, a orientação da Anvisa é parar de consumir o produto imediatamente e devolvê-lo ao estabelecimento onde foi comprado. Vale verificar a validade e o lote de qualquer unidade em estoque, já que a proibição vale para todos os lotes e datas de validade fabricados até agora, não apenas para produção futura.

Se você segue dieta vegana ou vegetariana e usa shakes proteicos à base de plantas como parte da rotina alimentar, o episódio é um bom momento para revisar se as marcas que você consome têm registro regularizado junto à Anvisa como suplemento alimentar — informação que, em geral, pode ser verificada diretamente no rótulo do produto ou no site da própria agência. Produtos sem essa regularização não são necessariamente perigosos, mas ficam sujeitos a esse mesmo tipo de ação regulatória a qualquer momento, o que pode gerar surpresas desagradáveis para quem depende do produto na rotina.

Para quem investe ou acompanha o mercado de foodtechs e alimentos à base de plantas, vale observar como a Ferrara conduz a regularização da linha NotShake nas próximas semanas — a velocidade e transparência da resposta tendem a ser um indicativo de como o novo grupo controlador pretende gerir os desafios regulatórios herdados da operação anterior.

O que observar daqui pra frente

Vale acompanhar se a Ferrara consegue regularizar o registro do NotShake junto à Anvisa nos próximos meses, permitindo o retorno do produto às prateleiras, ou se a marca opta por descontinuá-lo diante do custo e da complexidade de refazer os estudos de estabilidade exigidos.

Também merece atenção se a Anvisa aplica o mesmo rigor de fiscalização a outras marcas de suplementos alimentares que possam estar na mesma situação — sem registro regularizado dentro do prazo de 1º de setembro —, o que ajudaria a dimensionar se o caso NotShake é um episódio isolado ou o primeiro de uma série de ações similares no setor.

Por fim, vale observar os próximos passos da reestruturação global da NotCo rumo a uma empresa de licenciamento de tecnologia — se a estratégia de vender operações locais de produção de alimentos para focar em inteligência artificial se mantém em outros países, isso pode se tornar um caso de estudo relevante sobre a transição de foodtechs que cresceram como fabricantes para modelos de negócio baseados em propriedade intelectual e licenciamento de tecnologia alimentar.

Fontes consultadas: Agência Gazeta Brasília (agenciagbc.com); BRA1; MilkPoint; Suno Notícias.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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