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Starlink direto no celular: o que a Anatel liberou até 2029 e o que ainda não existe

Starlink direto no celular: o que a Anatel liberou até 2029 e o que ainda não existe
· 8 min de leitura

Quem já ficou sem sinal numa estrada, num sítio ou no meio de uma trilha conhece o incômodo: o celular está carregado, funcionando, e mesmo assim não consegue enviar uma simples mensagem. Em setembro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu mais um passo para tentar resolver esse problema com a ajuda de satélites, numa decisão que a imprensa resumiu como “Starlink direto no celular”. O apelido é chamativo, mas o que foi autorizado é mais limitado, e mais interessante, do que a manchete sugere. Este texto explica o que mudou, o que ainda não existe e o que você pode esperar dessa tecnologia.

O que aconteceu

A Anatel prorrogou até 22 de abril de 2029 a autorização temporária que permite à Vivo operar a conexão direta entre celulares e satélites, sem antenas externas. A decisão consta no Ato nº 11.334, publicado no Diário Oficial da União. Antes da mudança, a autorização da Telefônica Brasil, dona da Vivo, valeria apenas até 22 de outubro deste ano. A Starlink, empresa de satélites da SpaceX, é a parceira indicada pela operadora para o projeto.

O novo prazo acompanha a extensão do chamado sandbox regulatório que a Anatel criou para testar a tecnologia Direct-to-Device, conhecida pela sigla D2D. Sandbox, em tradução livre, é uma caixa de areia: um ambiente controlado em que uma empresa pode testar um serviço novo com regras flexibilizadas, sob supervisão do regulador. A permissão pode terminar antes de 2029 se a agência publicar regras definitivas para esse tipo de serviço.

Alguns detalhes técnicos ajudam a dimensionar o que foi liberado. A autorização vale para todo o território brasileiro, e os testes usam as frequências de 2.567,5 MHz e 2.687,5 MHz, em uma faixa de 5 MHz, que fazem parte do espectro da própria Vivo e já são usadas em redes móveis terrestres. A potência máxima de transmissão é de 100 watts. A operação é em caráter secundário, o que significa que o serviço não tem proteção contra interferências causadas por sistemas prioritários e precisa interromper as transmissões se causar problemas em outras redes. Por fim, a Vivo poderá oferecer comercialmente serviços baseados em D2D durante o período experimental, desde que cumpra as condições impostas pela agência, e poderá adicionar ou trocar o provedor de satélite até 2029, o que deixa espaço para outras empresas do setor. TIM e Claro acompanham o tema.

Por que aconteceu

A ideia por trás do D2D é usar satélites de baixa órbita como se fossem torres de celular no espaço. Um aparelho compatível, sem nenhuma antena extra, consegue falar com o satélite quando não encontra rede terrestre por perto. A conexão não substitui o 4G ou o 5G tradicional; funciona como uma extensão da cobertura móvel, principalmente em regiões rurais, áreas remotas e locais onde instalar torres, energia e fibra é difícil ou caro demais.

É aí que entra a lógica do regulador. Em tecnologias novas, uma regra definitiva escrita cedo demais pode travar a inovação. O sandbox permite aprender na prática, com o serviço funcionando, antes de definir uma regulamentação permanente. A prorrogação até 2029 dá à Vivo previsibilidade para investir e dá à Anatel tempo para observar resultados, como a qualidade da conexão e o impacto sobre outras redes. Essa é uma leitura do contexto; segundo a decisão, a experiência deve ajudar a Anatel a avaliar a conexão direta antes de regulamentá-la.

O que isso significa

O primeiro ponto é separar autorização de serviço pronto. O que existe hoje é uma permissão para operar em regime experimental, com direito de venda comercial condicionado às regras do sandbox. Não é o lançamento de um plano que você poderá contratar amanhã. Em julho, o Canaltech já lembrava que a oferta comercial depende de aprovações e de acordos com as operadoras.

O segundo ponto é a expectativa de desempenho. Nesta fase, a tecnologia tem foco em serviços que exigem pouco tráfego: mensagens, comunicações de emergência e conexões básicas de dados. Quem imagina assistir a vídeos ou fazer videochamadas em plena estrada, sem sinal de operadora, deve baixar a expectativa. O suporte a dados mais rápidos tende a chegar de forma gradual, conforme a capacidade da rede evoluir.

O terceiro ponto é o caráter secundário da operação. Como o serviço não tem proteção contra interferências de sistemas prioritários, ele pode ser interrompido em determinadas situações. Para o usuário, isso reforça a ideia de que o D2D é um complemento para quando não há nada melhor, e não uma garantia de conexão permanente.

O quarto ponto é a compatibilidade. A lista oficial de aparelhos compatíveis no Brasil ainda não foi divulgada, segundo levantamento do site Minha Operadora de 24 de setembro. O Canaltech publicou uma lista de nove modelos recentes das marcas Samsung, Apple e Motorola que devem funcionar, mas ressalva que ter o hardware é só parte da equação e que o serviço segue em fase de testes no Brasil. Celulares antigos tendem a ficar de fora.

Como afeta você

Na prática, hoje, você já pode usar a Starlink no celular, mas somente por meio do Wi-Fi gerado pela antena da empresa. Nesse modelo, uma antena residencial ou portátil capta o sinal do satélite e o distribui como uma rede Wi-Fi comum para os seus aparelhos. Segundo o Minha Operadora, os planos começam em R$ 189 por mês, e o equipamento custa de R$ 1.199 (modelo Mini) a R$ 2.400 (modelo Padrão); o plano Residencial Max sai por R$ 249 mensais, e os planos de viagem variam de R$ 339 a R$ 619. O Canaltech noticiou ainda, em 17 de setembro, uma promoção que vendia a antena por R$ 99 no Brasil. Preços e promoções mudam com frequência, então confira no site oficial antes de decidir.

Para o D2D, a recomendação é paciência. Segundo o Minha Operadora, o lançamento comercial é esperado para 2027, mas essa é uma estimativa do veículo, não uma data confirmada pela Vivo ou pela Anatel nas fontes consultadas. Por isso, não vale trocar de celular por causa dessa novidade: sem a lista oficial de aparelhos, o risco é comprar um modelo que não seja compatível.

Quem vive ou viaja com frequência por áreas sem cobertura, como produtores rurais, caminhoneiros e quem faz trilhas, é quem mais pode se beneficiar no futuro. Enquanto o serviço não estiver disponível e testado, continue com o plano B de sempre: avise alguém do seu trajeto, baixe mapas offline e leve carregador portátil.

Há um cuidado adicional, e ele vale para qualquer novidade tecnológica muito comentada: golpistas costumam aproveitar o assunto da semana. Mensagens prometendo “ativação gratuita da Starlink no seu chip”, links para “cadastro antecipado” ou cobranças para liberar o serviço devem ser tratadas como suspeitas. Como ainda não há oferta comercial de conexão direta ao celular anunciada nas fontes consultadas, qualquer pedido de pagamento ou de dados pessoais em nome desse serviço merece desconfiança. Confirme sempre pelos canais oficiais da operadora e não clique em links recebidos por mensagem.

O que observar daqui para frente

O primeiro ponto de atenção é a regulamentação definitiva. A permissão atual pode acabar antes de 2029 se a Anatel publicar regras permanentes, e o conteúdo dessas regras vai definir quem pode oferecer o serviço, em quais frequências e com quais obrigações de qualidade e de convivência com outras redes.

O segundo é a divulgação da lista oficial de aparelhos compatíveis e do cronograma de lançamento comercial. Enquanto isso não acontecer, as estimativas de data devem ser lidas com cautela.

O terceiro é a movimentação das demais operadoras. Se TIM e Claro entrarem no jogo, a concorrência tende a pressionar preços e qualidade.

Por fim, vale acompanhar os resultados práticos: cobertura real, estabilidade da conexão, velocidade nos serviços básicos e eventuais casos de interferência. É nessas medições que se vai descobrir se o “sinal que vem do céu” será um recurso de nicho para áreas isoladas ou uma camada relevante da telefonia móvel brasileira.

Fontes

Canaltech, “Anatel libera Starlink sem antena direto no celular para Vivo até 2029” (17/09/2026), sobre o Ato nº 11.334 da Anatel; Canaltech, “Starlink sem antena direto no celular: o que muda na prática?” (12/07/2026); Canaltech, “9 celulares que vão funcionar com Starlink sem antena” (24/09/2026); Minha Operadora, “Como usar a Starlink no celular no Brasil hoje e o que muda com a Vivo” (24/09/2026).

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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