Durante anos, tratar diabetes tipo 2 ou obesidade com uma caneta injetável semanal significou, na prática, ter orçamento para pagar quase mil reais por mês em um único medicamento de marca. Esse cenário está mudando de forma mensurável em 2026: com o fim da exclusividade de patente da Novo Nordisk sobre a semaglutida, o Brasil já soma doze novos medicamentos aprovados pela Anvisa neste ano — e o efeito sobre o preço já é possível de calcular, não apenas de prometer.
O que aconteceu
Em 8 de setembro, a Anvisa aprovou dois novos genéricos de liraglutida — produzidos pela farmacêutica EMS —, usados em canetas injetáveis para controle de peso e de glicemia em pacientes com diabetes tipo 2. Essa aprovação eleva para doze o total de medicamentos dessa classe liberados pela agência em 2026: dez à base de semaglutida (o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy) e dois à base de liraglutida (princípio ativo do Saxenda e do Victoza).
A onda de aprovações de semaglutida começou em maio, com o Ozivy, da EMS — o primeiro medicamento pós-patente a chegar ao mercado brasileiro, lançado com preço entre R$ 452 e R$ 498 por caneta, bem abaixo dos R$ 975 a R$ 999 cobrados pelo Ozempic de referência nas mesmas dosagens. Em julho, mais cinco produtos foram aprovados: Semavy (Cosmed), Owozy (Ávita Care), Zempneo (Brainfarma), Seemasun (Sun Farmacêutica) e Orsema (Ranbaxy). Em agosto, chegaram os primeiros genéricos propriamente ditos — vendidos apenas pelo nome do princípio ativo, sem marca associada — além do Semaclique, da Germed, e do Yluméc, também da EMS, no fim do mês.
Agora, em setembro, é a vez da liraglutida ganhar concorrência: os dois novos produtos da EMS têm como referência de mercado os medicamentos Olire (indicado para controle de peso em adultos e adolescentes) e Lirux (indicado para controle glicêmico), ambos já comercializados pela própria EMS. Diferente da semaglutida — de aplicação semanal —, a liraglutida exige aplicação diária, mas chega ao mercado com preço bem mais acessível: a partir de R$ 84 por caneta.
Por que aconteceu
O gatilho de toda essa onda de aprovações tem uma data exata: 20 de março de 2026, quando terminou a exclusividade de patente da Novo Nordisk sobre a semaglutida no Brasil. Patente de medicamento funciona como uma espécie de exclusividade temporária concedida ao laboratório que desenvolveu a substância, como forma de recompensar o investimento em pesquisa — durante esse período, nenhum concorrente pode fabricar e vender uma cópia do princípio ativo. Quando a patente expira, qualquer laboratório com capacidade técnica e registro sanitário aprovado pode produzir e vender sua própria versão.
É exatamente esse mecanismo que explica por que doze medicamentos apareceram em um intervalo de poucos meses, e não um de cada vez ao longo de anos: vários laboratórios brasileiros e multinacionais já vinham se preparando havia tempo para lançar suas versões assim que a barreira de patente caísse, sabendo do tamanho da demanda represada por essa classe de medicamento no Brasil — hoje uma das mais procuradas do país, tanto para diabetes quanto, cada vez mais, para emagrecimento.
A legislação brasileira de medicamentos genéricos também tem um papel direto na queda de preço: por lei, um medicamento genérico precisa ser vendido por pelo menos 35% a menos que o preço do medicamento de referência de marca. Com o Ozempic custando entre R$ 975 e R$ 999, isso coloca o piso legal dos genéricos na faixa de R$ 293 a R$ 323 — e, na prática, o mercado já está entregando preços de lançamento próximos ou até abaixo dessa faixa mínima, à medida que mais concorrentes entram e disputam espaço nas prateleiras de farmácia.
O que isso significa
O impacto mais direto é o acesso. Um medicamento que custava quase mil reais por mês — inacessível para a maior parte da população brasileira mesmo com renda considerada de classe média — passa a ter opções na faixa de trezentos reais ou menos, o que muda de forma real quantas pessoas conseguem sustentar o tratamento de forma contínua, sem interrupção por motivo financeiro. Isso é particularmente relevante para diabetes tipo 2, uma condição crônica que exige tratamento constante ao longo de anos, não pontual — interrupções por falta de dinheiro para comprar o medicamento tendem a piorar o controle da doença e aumentar o risco de complicações de longo prazo, como problemas renais, cardiovasculares e de visão.
Também há um efeito de mercado que tende a se intensificar: quanto mais laboratórios competindo dentro da mesma classe terapêutica, maior a pressão para os próprios medicamentos de marca original reverem preços ou lançarem estratégias comerciais mais agressivas (parcerias com plano de saúde, programas de desconto direto ao paciente) para não perder participação de mercado — um padrão já observado em outras classes de medicamento que passaram por quebra de patente no Brasil nos últimos anos.
Um ponto de atenção importante: mais opções não significa que qualquer medicamento dessa classe serve para qualquer pessoa. Semaglutida e liraglutida têm mecanismos de ação parecidos, mas não idênticos — diferenças de frequência de aplicação (semanal versus diária), efeitos colaterais e resposta individual do organismo variam de paciente para paciente, o que reforça a importância do acompanhamento médico na escolha e em qualquer eventual troca de medicamento.
Como isso afeta você
Se você ou alguém da sua família já usa caneta injetável para diabetes tipo 2 ou está em tratamento de obesidade sob orientação médica, vale levar essa lista de opções para a próxima consulta e perguntar diretamente ao médico se alguma das alternativas mais baratas — seja de semaglutida, seja de liraglutida — é clinicamente equivalente ao medicamento que você já usa hoje. A decisão de trocar não deve ser feita por conta própria: além da diferença de frequência de aplicação entre as duas substâncias, cada fabricante pode ter variações de dispositivo aplicador (caneta) que exigem adaptação.
Para quem ainda não iniciou tratamento por causa do custo elevado do medicamento de marca, esse é o momento de reabrir a conversa com o médico — a existência de opções mais acessíveis pode tornar viável um tratamento que antes parecia fora de alcance orçamentário, especialmente em casos de diabetes tipo 2 mal controlado, onde o próprio custo indireto de complicações futuras (internações, exames, outros medicamentos) tende a ser muito maior do que o custo do tratamento preventivo contínuo.
Vale também pesquisar preço em mais de uma farmácia e verificar se seu plano de saúde ou programa de benefício farmacêutico oferece desconto adicional sobre esses novos genéricos — como são produtos recentes no mercado, a política de cobertura de planos de saúde e de programas de descontos ainda está se ajustando, e pode haver diferença relevante de preço final entre um estabelecimento e outro para o mesmo medicamento.
O que observar daqui pra frente
Vale acompanhar se a Anvisa vai aprovar novos concorrentes ao longo do restante de 2026, o que tenderia a intensificar ainda mais a concorrência de preço — e também se os laboratórios que já lançaram produtos vão reduzir ainda mais os valores praticados à medida que a produção em escala se consolidar e os custos de fabricação caírem.
Também merece atenção se a versão genérica (vendida apenas pelo nome do princípio ativo, sem marca) vai ganhar mais força de mercado em relação aos “similares” com nome comercial próprio — historicamente, o genérico tende a ser a opção mais barata dentro de uma mesma classe terapêutica assim que a categoria se consolida, mas isso depende de fatores como confiança do consumidor e política de indicação médica.
Por fim, vale observar se essa mesma dinâmica de queda de preço por quebra de patente vai se repetir para outras substâncias da mesma família terapêutica que ainda não perderam exclusividade no Brasil, como a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro e do Zepbound) — cuja eventual entrada de genéricos, quando ocorrer, deve seguir padrão semelhante de queda de preço observado agora com a semaglutida.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientação médica. Qualquer decisão sobre início, troca ou interrupção de tratamento deve ser feita em conjunto com profissional de saúde habilitado.
Fontes consultadas: Agência Brasil; O Tempo; JM Online; Portal Contexto; Ciol.
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