A Anvisa aprovou o registro do Lunsumio SC (mosunetuzumabe), um anticorpo biespecífico indicado para adultos com linfoma folicular recidivado ou refratário — quando o câncer volta ou não responde depois de pelo menos dois tratamentos anteriores. A aprovação foi publicada em 20 de agosto de 2026 no Diário Oficial da União.
O que aconteceu
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o registro do Lunsumio SC, nome comercial do mosunetuzumabe, medicamento da farmacêutica Roche indicado para pacientes adultos com linfoma folicular recidivado ou refratário — ou seja, casos em que a doença voltou depois de um período de remissão, ou não respondeu adequadamente, após pelo menos duas linhas de tratamento anteriores. A decisão foi formalizada pela Resolução-RE nº 3.289, publicada no Diário Oficial da União em 20 de agosto de 2026, assinada por Anderson Vezali Montai, gerente substituto de produtos biológicos da Anvisa.
O medicamento é um anticorpo monoclonal biespecífico — uma classe de tratamento relativamente recente na oncologia — que se conecta simultaneamente a dois alvos diferentes: o antígeno CD20, presente nas células B malignas (as células do sistema de defesa do corpo que, no linfoma folicular, se multiplicam de forma descontrolada), e o antígeno CD3, presente em linfócitos T, outro tipo de célula de defesa. Na prática, o remédio funciona como uma espécie de ponte: aproxima as células T saudáveis das células cancerígenas e as ativa diretamente para atacar o tumor, em vez de depender de quimioterapia tradicional para destruir as células doentes. Foram aprovadas duas apresentações do produto, em frascos injetáveis de 5 mg/0,5 mL e 45 mg/1 mL, para aplicação subcutânea — uma via de administração mais rápida e prática do que a infusão intravenosa usada em boa parte dos tratamentos oncológicos.
Por que aconteceu
O linfoma folicular é o segundo tipo mais comum de linfoma não Hodgkin e é classificado como um câncer de crescimento geralmente lento (indolente). Isso é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um desafio: muitos pacientes vivem anos com a doença sob controle, mas ela raramente é considerada curável nas formas mais avançadas, e uma parcela relevante dos pacientes acaba enfrentando recidivas — o retorno do câncer depois de um tratamento aparentemente bem-sucedido — ou desenvolve resistência às terapias já disponíveis ao longo do tempo.
Para esses pacientes, que já passaram por pelo menos duas linhas de tratamento sem sucesso duradouro, as opções terapêuticas tendem a se tornar mais limitadas e, historicamente, mais agressivas em termos de efeitos colaterais. É justamente nesse cenário — pacientes que já esgotaram alternativas mais convencionais — que medicamentos como o mosunetuzumabe se posicionam: como uma opção adicional de tratamento para quando as terapias de primeira e segunda linha não funcionam mais. A aprovação no Brasil segue registros já concedidos em outros países, incluindo pela agência europeia de medicamentos (EMA), o que costuma acelerar e dar mais segurança regulatória ao processo de avaliação da Anvisa.
O que isso significa
A aprovação de registro pela Anvisa é uma etapa necessária, mas não é, sozinha, garantia de acesso amplo ao tratamento. Registro na Anvisa significa que o medicamento pode ser legalmente vendido e prescrito no Brasil — mas não determina, por si só, se ele será incorporado à rede pública de saúde. Essa segunda decisão cabe à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que já tem em avaliação um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico para linfoma folicular — processo distinto e, historicamente, mais demorado do que o registro sanitário em si.
Na prática, isso significa que, no primeiro momento após a aprovação, o acesso ao Lunsumio SC deve ficar restrito a pacientes com plano de saúde privado (sujeito às regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, sobre cobertura obrigatória) ou a quem puder arcar com o custo do tratamento diretamente — medicamentos biológicos e anticorpos monoclonais para oncologia costumam ter preço elevado, tipicamente na faixa de dezenas de milhares de reais por ciclo de tratamento, embora o valor específico deste medicamento no mercado brasileiro ainda não tenha sido divulgado publicamente.
Entendendo o linfoma folicular
Para quem não tem familiaridade com o tema, vale uma explicação mais direta sobre a doença em si. O linfoma folicular é o segundo tipo mais comum de linfoma não Hodgkin — um grupo de cânceres que se origina no sistema linfático, responsável por parte importante da defesa do corpo contra infecções. Diferente de tumores mais agressivos, ele costuma crescer devagar, o que significa que boa parte dos pacientes vive anos, às vezes décadas, com a doença sob controle, tratando quando necessário e passando períodos sem sintomas entre um tratamento e outro. É justamente essa característica — crescimento lento, mas raramente curável de forma definitiva nas fases mais avançadas — que torna o linfoma folicular uma doença crônica na prática, com pacientes que precisam, ao longo da vida, de mais de uma linha de tratamento à medida que a doença eventualmente volta a se manifestar ou deixa de responder ao remédio em uso.
É exatamente esse grupo — pacientes que já passaram por duas ou mais tentativas de tratamento sem sucesso duradouro — que o Lunsumio SC foi aprovado para atender. Não é, portanto, um remédio para o momento do diagnóstico inicial, mas para uma etapa mais avançada e mais difícil da jornada do paciente, quando as opções terapêuticas tendem a se tornar mais escassas.
Como isso afeta você
Se você ou alguém da sua família tem diagnóstico de linfoma folicular e já passou por duas ou mais linhas de tratamento sem sucesso duradouro, vale conversar com o hematologista ou oncologista responsável sobre a elegibilidade para esse novo tratamento — a indicação aprovada pela Anvisa é específica para esse perfil de paciente, não para quem está em primeira linha de tratamento ou recém-diagnosticado.
Se você tem plano de saúde privado, o próximo passo prático a acompanhar é se a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) vai incluir o Lunsumio SC no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde — a lista de tratamentos que os planos são obrigados a cobrir. Enquanto isso não acontece, a cobertura pode depender de negociação direta com a operadora do plano ou de decisão judicial, caminho que pacientes de outras doenças já percorreram no Brasil para acessar medicamentos recém-aprovados antes da incorporação formal.
Se você depende exclusivamente do SUS, o caminho de acesso passa pela aprovação do PCDT específico pela Conitec — um processo que envolve avaliação de custo-efetividade e impacto orçamentário, e que pode levar de meses a mais de um ano, dependendo da prioridade dada ao caso e da disponibilidade orçamentária do Ministério da Saúde para incorporar tratamentos oncológicos de alto custo.
O que observar daqui para frente
Vale acompanhar três desdobramentos práticos: se a Roche vai divulgar o preço do tratamento no mercado brasileiro e a partir de quando ele estará efetivamente disponível em farmácias hospitalares e clínicas oncológicas; se a ANS vai avaliar a inclusão do medicamento no rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde privados; e o andamento do processo na Conitec, que decide sobre a incorporação ao SUS — hoje em fase de consulta pública sobre o protocolo clínico do linfoma folicular como um todo, não apenas sobre este medicamento específico. Cada uma dessas três decisões afeta um grupo diferente de pacientes brasileiros, e nenhuma delas tem prazo definido até o momento.
Fontes consultadas: O Tempo, Metrópoles, Pinga Fogo Notícias, Bahia Notícias, gov.br/conitec.
📚 Leia Também
Anvisa proíbe lotes de dois remédios injetáveis após fiscalização encontrar corpo estranho e pedaço de vidro em frascos
Anvisa cancela autorização de 17 unidades ligadas a farmácias e indústrias — veja o que isso significa (e o que não significa)
O primeiro genérico de semaglutida chegou à Anvisa — e o remédio que vale até R$ 1.300 pode ficar bem mais barato


