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TSE vai usar 1.113 terminais Starlink para levar o voto de áreas remotas às urnas da eleição de domingo

TSE vai usar 1.113 terminais Starlink para levar o voto de áreas remotas às urnas da eleição de domingo
· 7 min de leitura

Em pelo menos 1.113 pontos de votação espalhados por treze estados, a urna eletrônica deste domingo (04/10) vai transmitir seu boletim para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por satélite, não pela internet comum. É a primeira vez que a Starlink, empresa de satélites de Elon Musk, entra oficialmente no processo eleitoral brasileiro — uma mudança de infraestrutura que já gerou tanto alívio técnico quanto desinformação, e que vale entender com calma antes da votação.

O que aconteceu

O TSE contratou, por meio de licitação pública, a empresa Hughes Telecommunications Brasil para operar terminais de comunicação via satélite Starlink em locais de votação sem acesso a internet convencional — ilhas, aldeias indígenas, comunidades quilombolas e vilarejos ribeirinhos em regiões remotas. Ao todo, serão até 1.113 terminais distribuídos por treze estados, com concentração natural nas áreas de maior dispersão geográfica: Amazonas e Pará recebem 350 unidades cada, Mato Grosso 117, Maranhão e Roraima 60 cada, Amapá 53, Acre 91, e quantidades menores em Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e Piauí. São Paulo, por comparação, recebe apenas 3.

O contrato foi firmado em março de 2026, especificamente para o ciclo eleitoral deste ano. Segundo o TSE, não há registro de uso de Starlink em eleições anteriores no Brasil — a tecnologia substitui, nesses pontos específicos, outras formas de conexão (como links de rádio ou deslocamento físico de mídias) historicamente mais lentas ou sujeitas a falha em áreas de difícil acesso.

Por que aconteceu

A urna eletrônica brasileira não depende de internet para registrar e apurar o voto — ela funciona de forma isolada, e o resultado (o boletim de urna) só precisa de conexão para ser transmitido ao sistema de totalização do TSE depois que a votação é encerrada. Em locais remotos, essa etapa final de transmissão sempre foi o elo mais frágil do processo: sem conexão estável, o boletim tem de ser levado fisicamente até um ponto com sinal, o que atrasa a divulgação dos resultados daquela seção.

A Starlink opera com uma constelação de satélites de órbita baixa que, diferente dos satélites tradicionais de alta órbita, oferece conexão com baixa latência mesmo em áreas sem nenhuma infraestrutura terrestre de telecomunicações — exatamente o tipo de lacuna que o TSE precisava cobrir para esses 1.113 pontos. A tecnologia já vem sendo adotada no Brasil em outros contextos de conectividade rural, e o próprio TSE já havia sinalizado, desde pelo menos 2020, a busca por soluções que garantam o voto também em localidades remotas do país.

Vale um parêntese importante: a plataforma usada para transmitir os dados das urnas até o sistema de totalização é o JE-Connect, do próprio TSE, responsável por enviar os arquivos de boletim assinados digitalmente. A Starlink e a Hughes atuam apenas como camada de conectividade física — o transporte do sinal —, não como parte do sistema eleitoral em si.

O que isso significa

Essa distinção técnica ganhou peso nos últimos dias porque um vídeo viralizou nas redes sociais afirmando que uma empresa estrangeira passaria a ser responsável por divulgar os resultados da eleição, colocando em risco a soberania do processo eleitoral brasileiro. O TSE respondeu publicamente para desmentir essa leitura: segundo o tribunal, a empresa contratada fornece apenas a conexão física nos pontos isolados e não tem qualquer acesso, interferência ou controle sobre a apuração, totalização ou conteúdo dos votos. O sistema eleitoral brasileiro usa criptografia de ponta a ponta nos boletins transmitidos, o que torna inviável, segundo o TSE, qualquer acesso não autorizado ou manipulação de resultado por quem só fornece o “cano” da conexão. O Tribunal de Contas da União (TCU) já analisou o processo de licitação e o considerou regular.

Na prática, o papel da Starlink aqui é equivalente ao de uma operadora de internet comum: ela carrega dados criptografados de um ponto a outro, sem capacidade de ler ou alterar o que está sendo transmitido. A diferença é que, em vez de fibra óptica ou torres de celular, o meio físico é um satélite — o que importa tecnicamente para quem mora nessas regiões, mas não muda nada do ponto de vista da segurança do voto em si, que depende de outros mecanismos (assinatura digital, auditoria, fiscalização multipartidária e do Ministério Público) que já existiam antes da Starlink entrar em cena.

Esse episódio também ilustra um padrão mais amplo: mudanças de infraestrutura técnica no processo eleitoral — ainda que bem documentadas e fiscalizadas — são um terreno fértil para desinformação, especialmente na véspera da votação, quando a desconfiança tende a se espalhar mais rápido do que a explicação técnica.

Como isso afeta você

Se você vota em uma das cerca de 1.113 seções remotas cobertas pelo contrato, a mudança prática é que o resultado da sua seção deve chegar ao sistema de totalização com mais rapidez e estabilidade do que em eleições anteriores, reduzindo o risco de atraso na divulgação parcial dos resultados daquela localidade. Para a grande maioria dos eleitores — que vota em áreas urbanas com conexão convencional —, não há nenhuma mudança perceptível no processo de votação.

O ponto mais útil para qualquer eleitor, independente de onde vote, é saber filtrar esse tipo de notícia: antes de compartilhar um vídeo ou mensagem afirmando que “uma empresa estrangeira vai controlar o resultado da eleição”, vale checar a fonte oficial — o próprio TSE publica desmentidos detalhados desse tipo de conteúdo em seu canal de combate à desinformação, geralmente dentro de 24 a 48 horas após o boato ganhar tração nas redes.

Para dar uma ideia de escala: o Brasil tem mais de 470 mil seções eleitorais espalhadas pelo país nas eleições gerais, segundo dados históricos do TSE — os 1.113 pontos cobertos pelo contrato com a Starlink representam uma fração pequena do total, mas concentrada exatamente nos lugares onde, sem essa solução, o resultado demoraria mais para chegar ou dependeria de deslocamento físico de mídias de armazenamento por rio, trilha ou estrada. O custo do contrato com a Hughes Telecommunications Brasil não foi divulgado publicamente em detalhe nas reportagens sobre o tema, mas o modelo de licitação pública — já auditado pelo TCU — é o mesmo usado para qualquer outro serviço de infraestrutura contratado pela Justiça Eleitoral, sem tratamento especial por se tratar de uma empresa ligada a Elon Musk.

O que observar daqui para frente

No curto prazo, vale acompanhar se a operação da Starlink nos 1.113 pontos remotos funciona sem incidentes relevantes no domingo — um primeiro teste real da tecnologia em escala eleitoral no Brasil, que pode servir de referência para o uso (ou não) de conectividade via satélite em pleitos futuros, incluindo as eleições municipais.

Também é razoável esperar que novos boatos sobre a participação de empresas privadas no processo eleitoral continuem a circular ao longo do dia da votação e na apuração — um padrão já observado em eleições anteriores sempre que uma nova tecnologia ou fornecedor privado entra no processo, mesmo em papéis estritamente operacionais. Por fim, vale observar se entidades de fiscalização eleitoral (partidos, Ministério Público, observadores internacionais) vão divulgar relatórios específicos sobre o desempenho da conectividade nessas áreas depois do pleito, o que ajudaria a avaliar se o modelo deve ser mantido, ampliado ou revisto nas próximas eleições.

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — nota oficial sobre o uso de terminais de comunicação via satélite nas eleições de 2026 e desmentido sobre participação de empresa estrangeira na apuração; reportagens sobre o contrato com a Hughes Telecommunications Brasil (março de 2026) e a distribuição dos 1.113 terminais por estado; histórico do TSE sobre conectividade em áreas remotas desde 2020.

Marcelo J. Sousa
Escrito por Marcelo J. Sousa

Analista, entusiasta de tecnologia e finanças, criador do Blend do Dia. Autor de Logos: Código Sombra.

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