Na mesma semana, a Meta enfrenta duas batalhas judiciais que, juntas, colocam em xeque o jeito como a empresa ganha dinheiro e o tamanho que ela tem permissão para continuar tendo. De um lado, um julgamento federal na Califórnia examina se o Instagram e o Facebook foram projetados para viciar adolescentes. Do outro, uma corte de apelações em Washington decide se a Meta pode manter o Instagram e o WhatsApp sob o mesmo teto. São processos distintos — um sobre o produto, outro sobre a estrutura da empresa —, mas miram no mesmo alvo: o modelo de negócio que fez da Meta uma das empresas mais valiosas do mundo.
O que aconteceu
Em 17 de agosto de 2026, começou na Corte Distrital dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia um julgamento movido por quatro estados americanos — Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey — contra a Meta. Sob a condução da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, o processo deve durar cerca de seis semanas, o que significa que ainda estará em andamento nesta semana. Os estados pedem até US$ 1,4 trilhão em penalidades, além de mudanças obrigatórias no produto, com base em leis de proteção ao consumidor e na COPPA, a lei federal americana que exige consentimento dos pais para coletar dados de crianças menores de 13 anos.
As acusações são específicas: a Meta teria desenhado de propósito recursos como o botão “curtir”, a rolagem infinita e os algoritmos de recomendação para maximizar o tempo de tela e o engajamento de adolescentes. Os estados também alegam que filtros de beleza no Instagram contribuíram para casos de transtornos alimentares e dismorfia corporal, e que a empresa sabia que menores de 13 anos usavam suas plataformas — violando as próprias políticas internas — sem agir para impedir. Este não é o primeiro revés da Meta no tema: a empresa já perdeu dois processos estaduais parecidos neste mesmo ano de 2026, ainda que na Justiça estadual, não na federal.
Enquanto isso, a Meta trava outra batalha, de natureza completamente diferente. Em 2020, a FTC (a autoridade antitruste dos EUA) processou a empresa alegando que as aquisições do Instagram, em 2012, e do WhatsApp, em 2014, foram usadas para eliminar concorrentes e consolidar um monopólio. O juiz federal James Boasberg decidiu a favor da Meta, rejeitando o caso. A FTC recorreu à Corte de Apelações do Distrito de Columbia, e é nessa disputa que a Meta está agora, em agosto de 2026, pressionando os desembargadores a manter a vitória.
Por que isso importa agora
Os dois processos nasceram de preocupações diferentes com o poder da Meta, mas amadureceram ao mesmo tempo porque reguladores e promotores americanos vêm há anos tentando encontrar, na Justiça, respostas para o tamanho e a influência das grandes plataformas de tecnologia. O caso sobre vício em adolescentes é comparado por especialistas jurídicos aos processos que, décadas atrás, mudaram a indústria do tabaco e, mais recentemente, a dos opioides — litígios que forçaram mudanças estruturais em setores inteiros. É esse o precedente que os quatro estados dizem buscar: não apenas uma multa, mas uma reformulação de como o produto funciona.
Já o caso antitruste segue uma lógica distinta. A defesa da Meta se apoia num argumento temporal: mesmo que a empresa tivesse poder de monopólio em 2020, quando o processo foi aberto, a FTC não poderia obter uma solução judicial a menos que a Meta ainda mantenha essa posição hoje — o que ela nega. Para sustentar isso, cita números: o conteúdo postado por amigos, razão de ser original do Facebook, hoje representa menos de 15% das publicações no feed do Facebook e apenas 5% no do Instagram — prova, segundo a empresa, de que o mercado mudou desde 2020 com a ascensão do TikTok e do YouTube. A FTC discorda em dois pontos: a lei antitruste americana (o Sherman Act) exigiria provar o status de monopólio apenas no momento em que o caso foi aberto, não de forma contínua; e TikTok não atenderia à necessidade específica de “compartilhamento entre amigos e família” que caracteriza o mercado que a Meta supostamente monopoliza.
O que isso significa
Colocando os dois processos lado a lado, fica mais claro o tipo de risco que cada um representa. O julgamento sobre vício em adolescentes é um risco de conduta: questiona como a Meta constrói e opera seus produtos, e uma derrota pode forçar mudanças em recursos usados por bilhões de pessoas — rolagem infinita, notificações, algoritmos de recomendação. Já a apelação da FTC é um risco estrutural: questiona se a Meta deveria sequer existir do jeito que existe hoje, com Instagram, WhatsApp e Facebook sob controle unificado. Uma multa, por maior que seja, a empresa paga e segue operando. Um desmembramento forçado mudaria o mapa da internet.
Vale um parêntese de ceticismo saudável. US$ 1,4 trilhão é o teto pedido pelos estados, não uma previsão de condenação — processos desse porte costumam terminar em valores bem menores, quando não em acordos fora do tribunal. E o histórico recente de casos antitruste contra grandes empresas de tecnologia nos EUA mostra mais vitórias parciais e acordos do que desmembramentos efetivos. Há ainda uma tensão curiosa entre as duas defesas da Meta: na Califórnia, a empresa nega ter desenhado produtos para viciar; em Washington, argumenta que enfrenta concorrência tão intensa que mal pode ser chamada de monopolista. Dois retratos que nem sempre combinam.
Como isso afeta você
O Brasil está entre os países onde Instagram, WhatsApp e Facebook são praticamente infraestrutura social — usados para conversar com a família, vender produtos, se informar e manter contato profissional. Por isso, o desfecho dessas duas disputas, mesmo ocorrendo em tribunais americanos, tende a chegar até aqui. Se os estados vencerem o julgamento sobre adolescentes, mudanças no produto — como limites à rolagem infinita, alertas de tempo de uso ou restrições a contas de menores — dificilmente ficariam restritas aos Estados Unidos; empresas globais costumam padronizar esse tipo de ajuste, como já aconteceu com regras de privacidade nascidas na Europa. Já o processo antitruste é mais indireto, mas não menos relevante: se a Meta perder a apelação e for obrigada, no limite, a se desfazer do Instagram ou do WhatsApp, isso pode alterar como seus dados circulam entre os aplicativos — hoje a empresa compartilha informações e infraestrutura entre as três plataformas, o que sustenta parte da publicidade direcionada que você recebe. Vale lembrar: este texto é informativo, não uma previsão de como cada caso vai terminar.
O que observar daqui para frente
No curto prazo, o principal marco é o fim do julgamento na Califórnia, esperado para cerca de seis semanas após seu início em 17 de agosto — ou seja, por volta do final de setembro ou início de outubro de 2026. Vale acompanhar não só o veredito, mas também se a Meta sinaliza mudanças de produto antes mesmo de uma decisão final, algo comum quando empresas tentam reduzir danos de imagem durante um julgamento longo. Já no caso antitruste, o processo está em ritmo mais lento: a Corte de Apelações do Distrito de Columbia ainda não marcou data para os argumentos orais, e só depois disso deve decidir se mantém ou reverte a decisão do juiz Boasberg. Não é um caso que se resolve em semanas — mas é o tipo de decisão que, quando sai, redesenha o setor inteiro.
No fundo, os dois processos fazem a mesma pergunta por ângulos diferentes: até onde vai o poder de uma empresa que se tornou parte do dia a dia de bilhões de pessoas? A resposta, seja qual for, provavelmente não virá de uma vez — mas vai chegando aos poucos, em decisões como essas, que raramente fazem manchete de capa, mas que moldam o app que você abre todos os dias.
Fontes: NPR — cobertura do julgamento sobre vício em adolescentes na Meta, MediaPost — “Meta Fights FTC Bid To Revive Monopoly Charges”, FTC.gov — comunicado sobre a apelação do caso antitruste contra a Meta
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