Em 1926, o performer De Chocolat fundou a Companhia Negra de Revistas, a primeira companhia de teatro inteiramente negra do Brasil, estreando com o espetáculo “Tudo Preto” — um marco na representatividade negra no teatro popular brasileiro, num período em que isso era raríssimo nos palcos do país. Cem anos depois, o CCBB Rio recebe “Tudo Preto: uma re_vista”, uma releitura contemporânea que resgata essa história e a atualiza para o presente. Em cartaz até 13 de setembro, com entrada gratuita, é uma das estreias culturais mais significativas do Rio neste segundo semestre — e passa relativamente despercebida fora do circuito de quem acompanha teatro de perto.
O que aconteceu
O CCBB Rio (Centro Cultural Banco do Brasil) estreou, em 31 de julho, o espetáculo “Tudo Preto: uma re_vista”, em cartaz no Teatro I até 13 de setembro de 2026. A peça é uma reencenação contemporânea que celebra o centenário da Companhia Negra de Revistas, fundada em 1926 pelo artista De Chocolat — a primeira companhia de teatro inteiramente negra da história brasileira, cuja estreia se deu justamente com o espetáculo original “Tudo Preto”.
A nova montagem tem direção e dramaturgia de Mauricio Lima e Tainah Longras, consultoria dramatúrgica de Pedro Emanuel e direção musical de Muato, com elenco formado por Afroflor, Beá Ayóòla, Juliane Cruz, Lucas Sampaio, Lux Nègre e Nely Coelho. Em vez de simplesmente recriar o espetáculo original, a proposta declarada da equipe criativa é atualizar o texto e ampliar a conversa sobre identidade, memória e o papel da população negra na formação da cultura nacional — usando o material histórico de 1926 como ponto de partida para questões que, segundo a produção, seguem relevantes um século depois.
A peça está em cartaz junto com outras atrações no CCBB Rio neste mês de agosto, incluindo a exposição “Vik Muniz: A Olho Nu” (também gratuita, até 12 de outubro), o ciclo de cinema “Cinemateca do MAM no CCBB” e as peças “Gaivota” e “Frankenstein de Mary Shelley” — um mês particularmente denso de programação no centro cultural.
Por que isso importa agora
A Companhia Negra de Revistas nasceu num momento em que o teatro de revista — o gênero popular da época, misturando música, humor e crítica social — era dominado quase inteiramente por elencos e produções brancas, mesmo em um país majoritariamente formado pela presença negra na sua cultura popular. A companhia de De Chocolat rompeu essa barreira criando um espaço de protagonismo negro no palco num período histórico em que isso exigia enfrentar barreiras sociais e institucionais consideráveis — menos de 40 anos depois da abolição formal da escravidão no Brasil.
Resgatar essa história agora, cem anos depois, tem um peso que vai além da efeméride: é um lembrete de que a presença negra no teatro brasileiro não começou nas produções contemporâneas mais visíveis — ela tem uma linhagem de mais de um século, muitas vezes apagada ou pouco lembrada na narrativa dominante sobre a história do teatro nacional. Trazer esse resgate para dentro de um espaço institucional de grande visibilidade como o CCBB, com entrada gratuita, amplia o alcance dessa história para além do circuito especializado que normalmente preserva esse tipo de memória.
O que isso significa
“Tudo Preto: uma re_vista” não é uma peça de museu tentando reconstituir fielmente um espetáculo de cem anos atrás — é uma obra nova, que usa a história da Companhia Negra de Revistas como estrutura para discutir identidade e memória negra no presente. Isso é uma escolha deliberada da equipe criativa: em vez de tratar 1926 como um capítulo fechado e distante, a montagem propõe que as questões levantadas por De Chocolat e sua companhia continuam abertas, mudando de forma mas não de substância.
Esse tipo de trabalho — pesquisa histórica traduzida em linguagem teatral contemporânea — tende a ter valor tanto artístico quanto documental: além da experiência de assistir ao espetáculo, ele funciona como uma porta de entrada acessível para uma parte da história cultural brasileira que raramente aparece no currículo escolar padrão ou na cobertura de mídia sobre teatro.
Como isso afeta você
Se você mora no Rio de Janeiro ou vai estar na cidade até 13 de setembro, “Tudo Preto: uma re_vista” é uma opção cultural gratuita e de peso histórico real, num centro cultural de fácil acesso (o CCBB Rio fica no Centro da cidade, próximo a estações de metrô e VLT). Os ingressos costumam ser retirados com antecedência pelo canal oficial do CCBB — vale reservar com alguns dias de folga, já que espetáculos gratuitos em cartaz longo tendem a lotar em fins de semana e datas de maior procura.
Para quem não está no Rio ou não consegue ir ao teatro físico, vale o registro como referência cultural: pesquisar sobre a Companhia Negra de Revistas e De Chocolat é, por si só, uma forma de conhecer uma parte pouco divulgada da história do teatro brasileiro — disponível em livros de história do teatro nacional e em acervos de instituições como a Biblioteca Nacional e o próprio CCBB.
O que observar daqui para frente
Vale acompanhar se a montagem ganha temporada estendida além de 13 de setembro, ou se circula para outras unidades do CCBB pelo país (São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador têm unidades do centro cultural) — peças que resgatam efemérides de centenário costumam ter esse tipo de itinerância quando bem recebidas pelo público e pela crítica. Também vale observar a repercussão crítica da montagem nas próximas semanas, e se ela reacende interesse por outras pesquisas sobre a história do teatro negro brasileiro anterior à segunda metade do século 20, um período historicamente pouco documentado em comparação com décadas mais recentes.
Recomendações do Blend
Para quem quer se aprofundar na história do teatro negro brasileiro antes ou depois de assistir ao espetáculo, vale buscar livros de história cultural e teatral brasileira com foco em representatividade negra — boa parte deles disponível em livrarias online e plataformas de e-book.
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Fontes: Rio Times Online — Companhia Negra: 1926 Black Troupe Revived at CCBB Rio, Uran Rodrigues — CCBB Rio celebra os 100 anos da primeira companhia negra de teatro do Brasil, CCBB — Programação Rio de Janeiro
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