Um dos primeiros carros elétricos populares vendidos no Brasil está sendo revendido, usado, por menos da metade do preço de lançamento. O JAC e-JS1, que chegou ao mercado em 2021 custando cerca de R$ 149.990, hoje aparece em anúncios de usados por valores próximos a R$ 70 mil — uma desvalorização superior a 50% em pouco mais de quatro anos. Para quem sonha com um elétrico barato, parece a oportunidade perfeita. Mas o motivo da queda de preço tem menos a ver com “pechincha” e mais com um retrato técnico específico: o carro tirou nota zero no teste de segurança do Latin NCAP.
O que aconteceu
O JAC e-JS1 foi um dos primeiros elétricos de entrada vendidos no Brasil, posicionado como opção urbana e compacta num mercado ainda começando a se abrir para veículos 100% elétricos. Quatro anos depois, ele aparece no mercado de usados com desvalorização acima de 50%, negociado por valores na faixa de R$ 70 mil — enquanto, na época do lançamento, chegava perto de R$ 150 mil.
Três fatores explicam essa queda, segundo o histórico do modelo: a chegada de concorrentes mais novos e mais baratos, como o BYD Dolphin Mini, o Renault Kwid E-Tech e o Caoa Chery iCar; a insegurança de compradores em relação ao estado real da bateria em um elétrico usado, sem histórico claro de degradação; e, o fator mais determinante, o resultado do crash test do Latin NCAP, órgão latino-americano independente de avaliação de segurança veicular.
Em dezembro de 2022, o JAC e-JS1 foi avaliado pelo Latin NCAP e recebeu zero estrelas — a pior classificação possível. O relatório do teste apontou estrutura instável e fraca proteção para os pés do motorista no impacto frontal, proteção baixa para o tórax do ocupante adulto (resultando em zero pontos nesse quesito), proteção fraca de tórax e pelve nos testes de impacto lateral e ausência de airbags laterais para a cabeça. O carro também não tem freio autônomo de emergência (AEB) nem controle eletrônico de estabilidade (ESC) — durante o próprio teste, o desgaste dos pneus foi tão severo que a avaliação de estabilidade precisou ser interrompida.
Mais grave: o sistema da bateria falhou em cortar a energia elétrica após o impacto frontal, apesar de as normas exigirem desligamento automático de emergência nesse cenário. No teste de impacto lateral, o sistema chegou a ser ativado, mas o carro permaneceu móvel com a bateria ainda conectada. Para efeito de comparação, no mesmo lote de testes do Latin NCAP, o Mitsubishi Outlander atingiu a nota máxima de 5 estrelas, e o Kia Sportage recebeu 3 estrelas.
Por que isso importa agora
O mercado de elétricos usados no Brasil ainda é pequeno, mas está crescendo — e ele carrega um problema que o mercado de usados a combustão não tem na mesma escala: a dificuldade de avaliar, de fora, o estado real da bateria (o componente mais caro do carro) e, no caso de modelos mais antigos, um histórico de segurança que muitas vezes não acompanhou a evolução do restante do setor. Um carro pode estar mecanicamente “bom” e ainda assim ser estruturalmente inseguro em caso de colisão — que foi exatamente o veredito do Latin NCAP sobre o e-JS1.
Isso não é um problema exclusivo desse modelo: é um lembrete de que “elétrico” e “seguro” não são sinônimos automáticos, e que preço baixo demais em um usado quase sempre tem uma razão concreta por trás.
O que isso significa
Não significa que todo elétrico usado barato é uma armadilha — significa que o preço, isoladamente, não é informação suficiente para decidir a compra. O e-JS1 tem uso real: para quem dirige exclusivamente dentro da cidade, em baixa velocidade, ele pode cumprir a função de deslocamento urbano barato. O problema é comprar sem saber que estrutura, freio autônomo, controle de estabilidade e airbags laterais não fazem parte do pacote — e sem entender que, num acidente, o resultado tende a ser pior do que em um carro com nota alta no crash test.
Como isso afeta você
Se você está pensando em comprar um elétrico usado por preço muito abaixo da média do segmento, isso pede três checagens antes de fechar negócio, independentemente da marca ou modelo:
Primeiro, procure o resultado do crash test do próprio modelo no site do Latin NCAP (latinncap.com) — é gratuito e público, e mostra nota em estrelas mais o detalhamento de cada categoria (proteção de adulto, criança, pedestre e assistências de segurança). Segundo, peça um laudo específico do estado da bateria — não apenas uma “revisão geral” — já que a troca de uma bateria de elétrico custa uma fração relevante do valor do carro, às vezes perto do valor do próprio veículo usado. Terceiro, avalie o uso real que você vai dar ao carro: um elétrico de entrada, sem AEB nem ESC, sem nota de segurança, tende a fazer mais sentido como segundo carro urbano de baixa velocidade do que como carro principal de uso em rodovia ou em trânsito mais rápido.
Isso vale tanto para o e-JS1 especificamente quanto como critério geral: antes de qualquer elétrico usado, comece pela nota de segurança, não pelo preço.
O que observar daqui para frente
A tendência é que o mercado brasileiro de elétricos usados continue crescendo à medida que os primeiros lotes vendidos a partir de 2021 completam quatro, cinco, seis anos de uso — e, com isso, mais modelos de entrada devem repetir esse padrão de desvalorização acentuada. Vale acompanhar se fabricantes desses modelos mais antigos vão atualizar versões futuras com os itens de segurança que faltaram (freio autônomo, controle de estabilidade, airbags laterais), e se o Latin NCAP vai ampliar a testagem de outros elétricos de entrada que ainda não passaram por avaliação — hoje, a maioria dos compradores de usados simplesmente não tem esse dado disponível na hora da compra.
Recomendações do Blend
Antes de fechar a compra de qualquer carro usado — elétrico ou não —, vale considerar contratar uma vistoria veicular independente, que avalia estrutura, itens de segurança e, no caso de elétricos, o estado da bateria por meio de diagnóstico eletrônico.
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Fontes: Revista Fórum, AUTOO, AutoPapo
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