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BYD na Lista Suja: 163 Resgatados e o Governo Demitiu Quem Denunciou

BYD na Lista Suja: 163 Resgatados e o Governo Demitiu Quem Denunciou
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Em dezembro de 2024, auditores fiscais do Ministério do Trabalho resgataram 163 trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão nas obras da fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia. Com o avanço das investigações, esse número chegou a 224 trabalhadores. Em abril de 2026, a montadora foi incluída na Lista Suja do Trabalho Escravo do governo federal.

Quatro dias depois, o secretário nacional de Inspeção do Trabalho que assinou a inclusão foi demitido.

Esta é a história de um dos casos mais reveladores sobre os bastidores do poder no Brasil — e sobre o que acontece quando interesses econômicos e diplomáticos colidem com o combate ao trabalho escravo.

O Que É a Lista Suja

A Lista Suja do Trabalho Escravo é um cadastro público mantido pelo Ministério do Trabalho desde 2003. Nela são incluídas empresas e pessoas físicas cujas autuações por uso de trabalho análogo à escravidão foram confirmadas após processo administrativo com direito a defesa em duas instâncias.

A lista é considerada pela ONU um dos instrumentos mais eficazes do mundo no combate ao trabalho escravo. Empresas incluídas nela enfrentam restrições de crédito, perda de contratos e danos reputacionais severos. O mercado financeiro usa o cadastro como referência para gestão de risco.

Em abril de 2026, a atualização semestral incluiu 169 novos nomes, totalizando 613 empregadores no cadastro.

As Condições Encontradas na Fábrica da BYD

Segundo o relatório da fiscalização, os trabalhadores chineses resgatados na obra de Camaçari viviam em condições que chocaram os auditores:

A BYD alegou que os trabalhadores eram de uma empresa terceirizada e, portanto, não estavam sob sua responsabilidade direta. Os auditores fiscais não acataram o argumento e apontaram a montadora como empregadora direta, com vínculo empregatício estabelecido.

A Demissão do Secretário

Luiz Felipe Brandão de Mello, secretário nacional de Inspeção do Trabalho, foi exonerado em 10 de abril de 2026 — quatro dias após a inclusão da BYD na Lista Suja. A saída foi assinada pela Casa Civil da Presidência da República e publicada no Diário Oficial da União em 13 de abril.

O Ministério do Trabalho afirmou que a exoneração “trata-se de ato administrativo de gestão, de prerrogativa de ministro de estado”. Mas a Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Anafitra) foi direta:

“O episódio ocorre em meio a uma sequência de interferências do ministro do Trabalho. O combate ao trabalho escravo é uma política de Estado, não pode ficar sujeito à vontade de governos ou autoridades de ocasião.” — Rodrigo Carvalho, auditor fiscal e membro da Anafitra

Antes da demissão de Brandão, o ministro Luiz Marinho já havia avocado para si a decisão final sobre a inclusão da JBS na Lista Suja — impedindo temporariamente a publicação do nome da empresa no cadastro.

O Que Isso Revela

O caso BYD não é apenas uma história de trabalho escravo. É um espelho de como interesses econômicos e diplomáticos podem pressionar — e eventualmente dobrar — instrumentos de proteção trabalhista que levaram décadas para ser construídos.

A entrada da BYD na lista teve repercussão até em Pequim. O Ministério das Relações Exteriores chinês foi acionado. A montadora obteve liminar judicial para sair do cadastro dois dias após a inclusão. E o servidor que assinou a inclusão perdeu o cargo.

Para o trabalhador comum, a pergunta que fica é simples: se uma das maiores montadoras do mundo, com toda a pressão diplomática e econômica que pode exercer, consegue se livrar da lista em dois dias — o que garante que o instrumento ainda funciona para os demais?


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